quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Crônica para uma jovem só.



CRÔNICA PARA UMA JOVEM SÓ.
Uma das pessoas mais humanas que eu conheci, É uma jovem de 18 anos; morena cheirando a pecado, com um rosto lindo no qual havia duas luzes maldosas e puras. Seus lábios foram feitos para serem beijados e calados. Seu corpo pertence à àquele tipo de corpo que possuem um gingado maluco e que nunca estão quietos, sempre girando, girando, em eterno movimento. Ela é tão humana que consegue humanizar o “amor máquina”. Ela vive o mundo em cada célula do seu corpo e se recolhe em si, tomando uma atitude de defesa. Ela ataca se entregando e se defende recusando. Está constantemente em luta contra seu próprio eu. Seu nome “Elaine Cristina”.
Sempre em dúvidas perguntava: “o que é que eu faço da minha vida?”, eu lhe respondia: “faça o que achar certo”, sorria quando seus olhos eram sombras e perguntava: “o que é certo?”. O certo e que eu não sabia responder. Dizia-me que um dia seria livre, mas não sabia o que é ser livre. Reclamava por não ir aos clubes, quando ia ficava triste. Seus olhos, verdadeiros termostatos, indicavam todos os seus sentimentos, todos os seus estados da alma. Constantemente inquieta, constantemente indecisa, hora alegre, hora triste; sempre humana.
À medida que se revoltava contra si, seus cabelos revoltavam-se contra o vento. Dentre seus defeitos tinha um imperdoável, ser humana. Em um tempo tão desumano, ser humano e um absurdo, uma monstruosidade da natureza, um outro absurdo, a natureza. Gostava de se isolar quando triste, vivia ausente das coisas, fugia da solidão isolando-se em si. Dizia não saber o que é amar, mas amava a si e a todos.
 Em um tempo em que nossa juventude pensa apenas na alienação cultural, social e humana; a existência de uma jovem que corresponde à descrição exposta, é uma exceção maravilhosa. As dúvidas, as fugas são retratos de uma conscientização frente aos problemas existenciais de cada dia. O isolamento retrata a necessidade de compreensão, a necessidade de mudar, criar, existir. Um dia mudanças ocorrerão. A dúvida, a fuga, o isolamento, se tornarão plenitude, e a plenitude nos libertará. Liberdade não se acha, luta-se por ela.
Maceió, janeiro de 1972
Jorge da Silva Leite.

Essa crônica foi escrita em 1972. Eu com meus 21 anos, ela com 17. Éramos jovens sonhadores, inquietas, cheios de dúvidas, cheios de alegria. Seguimos estradas diferentes, mas continuamos unidos pelas lembranças dos momentos vivenciados juntos. Papel amarelado pelo tempo, encontrado no fundo do baú de minhas lembranças; demonstra que toda experiência é válida, que todo momento e guardado, jamais esquecido. Que tudo é sagrado.
Recife, 28 de dezembro de 2017.
Jorge Leite

Um comentário:

  1. Espetacular em todos sentidos. Uma Crônica que transporta o leitor para o momento do relato. Uma viagem transcendental no desenrolar das recordações abordadas. Uma verdadeira relíquia. A imagem no papel amarelado pelo tempo é fascinante. Aplausos mil! Amei sua pastagem.

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