sexta-feira, 30 de março de 2018

TORMENTA EM ALTO MAR


TORMENTA EM ALTO MAR

          O luar prateado resplandecia, por entre os coqueiros, iluminando a exuberante colônia de pescadores: Mar de Aventuras, um local aconchegante, com casinhas em cores diversificadas, muita relva verdejante nos arredores e um vasto oceano, onde se abrigam várias espécies de animais marinhos; uma torre onde um farol servia de orientação aos navios e barcos, para que não colidissem com os enormes rochedos semissubmersos. A pesca é o meio de sobrevivência, predominante, dos moradores daquele lugarejo.
           Em uma noite primaveril, fascinante... O jovem Antônio, homem determinado em seu ofício de pescador, estava se preparando para mais uma noite de trabalho ao mar; conferia o barco, na parte interna e externa, conferia, também, as velhas redes; certificando-se, pessoalmente, se tudo estava sobre controle, ao lado de seu cachorro Totó, companheiro das lidas diárias, que era tão importante na pescaria quanto uma pessoa humana. (Sabe-se que os animais possuem sentidos muito mais aflorados que os humanos e, graças a eles, podem captar o que está para acontecer com o clima, de forma antecipada). Antônio, logo pensou: “Com um luar deslumbrante assim, a pescaria promete.” Respirou fundo, enchendo os pulmões do ar impregnado pelo forte aroma da maresia. Observou o mar: somente calmaria. Finalizadas as tarefas de preparação, se deitou na areia fina da praia de São Miguel dos Milagres, pretendendo descansar um pouco, enquanto aguardava seus amigos de empreitada: José e Paulo. Preocupado, ele precisava ter êxito na pescaria, naquela noite, pois que seu, pouco, dinheiro em caixa não daria para pagar os compromissos e para comprar o essencial para a família, pois o que vinha do mar era a sua única fonte de renda. Sentiu o coração apertado, palpitante... Com as pálpebras semicerradas, pelo peso do cansaço que se transformava em sono, entrevia o brilho do planeta Vênus, tão próximo à lua, que parecia um rebento, ou uma extensão dela mesma... de repente, o pequeno planeta se agigantou em uma onda enorme que investia sobre ele e seus amigos. Rosnavam os ventos sobre seus braços, que tentavam segurar o leme, e se transformavam em espumas e granizo, que atacavam sua pequena embarcação e seus companheiros... Assombrado, quedou-se, de joelho, sobre o convés, e implorava aos Céus: “Piedade! Não deixem que eu morra sem que meus filhos estejam criados; antes que possam ser ‘donos de seu próprio nariz’, quando possam cuidar de si mesmos e de suas proles” ... De repente, um clarão rasga o céu... ainda, por isso, com maior pavor, imaginava ser o fim de tudo; onde um raio o exterminaria; mas, em meio ao clarão, viu uma figura branco/reluzente, que lhe dizia: “Força e Fé! Deus não desampara os humildes, que colocam nele sua confiança e sua vida”! Pasmo, ouviu outra voz, dessa vez conhecida, que chamava: “Toinho, deixe de folga! Já se faz hora de nos lançarmos ao mar!” Abriu os olhos e viu que era o José, ou o “Zé Precata”, como costumava chamar, pois que sempre andava calçado com uma chinela de couro cru...
        - Cê tá parecendo assombrado, companheiro... Disse, em seguida, o Zé Precata...
          - É que estava em um pesadelo, onde nós sofríamos muito, sob uma tormenta violenta...
          - Bobagem... Sonhos sempre acontecem ao contrário... e vamo-nos logo, hoje, a noite promete, quando temos Lua Cheia, a luminosidade, mais intensa, faz com que os peixes subam para mais próximo da superfície, o que nos facilita a captura. Dizia Paulo, que chegara junto com o Zé.


          Mesmo ressabiado, Toinho ajudou seus companheiros a colocar o velho barco no mar e, seguiram para mais uma noite de aventuras, como foram a suas, inúmeras, pescarias. Já bem afastados da costa, de onde não mais viam o brilho das lâmpadas do povoado, Totó começou a latir, como se em desespero; então Toinho começou a perceber que o mar estava ficando agitado e que, grossas, nuvens começavam a tingir de negro o horizonte. Era sinal de tempo ruim! Logo começou o vai e vem das maretas, e o agigantar das ondas... ficando, cada vez mais, complicado manter o barco no prumo. Totó latia sem parar... Com as ondas altas, o barco poderia se deixar à deriva, com perigo de se afastar para uma zona desconhecida e perigosa... O desespero, quase ao pânico, dos pescadores, se tornou visível...
          Toinho assumiu o leme, mesmo sabendo que, em meio à uma tempestade, ele se torna obsoleto... Chamou por seus companheiros, mas não ouviu nenhuma resposta... A cortina de água que se formou dificultava sua visão, a ponto de não poder localizar nada, nem seus companheiros... Mais ainda se afligia, pois, sendo o barco velho, era provável que não suportaria uma tempestade duradoura. Segurava o leme com toda a força que lhe era possível, para que não girasse, à deriva, e perdesse o rumo definido... De repente, surge à frente uma onda gigantesca, mas, antes que atingisse a proa do barco, um clarão turva a vista do pescador... Gritou pelos companheiros, e nada... nem o Totó ouvia latir... Quedou-se, ajoelhado, assombrado e temeroso, sobre o convés... e, naquela posição, voltou-lhe a visão do sonho na praia... Ajuntou as últimas forças e, com lágrimas e suspiros, elevou aos Céus seus pensamentos e, como nos sonhos, repetiu: “Por piedade, não me deixem morrer antes de ver meus filhos criados e felizes!”
             Em instantes as chuvas foram ficando amenas e, a neblina, aos poucos, desaparecendo. Ouviu Totó latir de novo. O barco ficou no prumo novamente. Olhou para todos os lados à procura dos amigos, avistou-os, inertes, abrigados embaixo de uma lona antiga. Disse-lhes:
          - Amigos chamei por vocês, e por que não responderam, e nem foram em meu socorro?
          - Tudo estava pavoroso, sentimos muito medo e nos escondemos aqui. Respondeu Paulo.
          Vamos voltar para casa ou continuar com a pescaria? Perguntou, ainda atônito, o Zé Precata.
          Retorquiu-lhe Toinho:
          - Vamos manter nossa pescaria pois, apesar das chuvas, é importante lembrar que a pesca pode ser tão produtiva como em dias de luar intenso. Vamos esperar mais um pouco e, jogaremos as redes ao mar... Ânimo! Creio que os Céus estão conosco... e intercederão a nosso favor!
          O mar se fez calmo, como nunca antes visto, e os amigos lançaram as redes, que retornaram, quase a se romperem, lotadas de peixes. Um largo sorriso voltou à face rosada de Antônio que, agora, sabia que os Céus não desamparam os humildes, aqueles que põe a Fé à frente de suas vidas.
            Caia a temperatura, quando o sol resplandeceu no horizonte. Era hora de voltar para casa... Os samburás cheios de peixes, definiam o êxito da pescaria... Agora, tranquilos, pois já havia meios de sustento para as famílias; por um bom período...
          Assim é o Mar, a praia, as chuvas, os ventos, a Lua, o Sol... Obedientes e crentes... com Deus e em Deus!
Elisabete Leite – 04/03/2018





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8 comentários:

  1. Sensacional ficou a página, as imagens ilustrativas deram um show, o cenário abrilhantou o conto, deixando a narrativa deslumbrante. Muito emocionada, pois que o tema é adequado para Semana Santa... A Fé torna tudo possível. Orgulhosa de mim. Quero agradecer a todos que de alguma firma fizeram este momento acontecer. Ao Jorge gratidáo sempre por partilhar meus tantos momentos Literários. Tudo lindo! É para se emocionar e chorar.

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  2. Que maravilha de conto amiga Bete, um texto envolvente que me deixou presa no tema. Bastante adequado ao período que estamos vivenciando. Nos faz repensar, a Fé além do nosso olhar... Realmente as imagens ilustrativas embelezaram ainda mais o conto. Amiga, aplausos para sua arte e parabéns pelo conjunto. Feliz Páscoa a todos!

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  3. Sensacional conto, poetisa amiga Elisabete Leite, um tema envolvente, que nos faz refletir sobre a nossa Fé. Temática muito adequada a Semana Santa. O peixe e o milagre dos pescadores. Passagens importantes para nós. Muito bom ler seus contos e buscar neles a Fé que precisamos para realizar nossos sonhos. Deslumbrantes imagens! Parabéns a ambos!

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  4. Um conto magnífico, que emociona e nos faz refletir sobre o sentimento de Fé. Que prende o leitor do início ao fim e também nos ajuda a criar mundos e fortalecer os laços com a leitura. Um temática proprícia ao tempo de quaresma. Imagens encantadoras. Parabéns a ambos!

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  5. Assim voltamos à beleza originária das fábulas e dos contos... implícitas, estão, as palavras para a alma, assim como as lições para o cotidiano... Parabéns!

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  6. Mais um conto lindíssimo para nosso deleite amiga. Como tudo que escreves! As imagens que ilustram o blog sao de muito bom gosto, de um mestre como Jorge Leite. Estamos sentindo a falta dos seus belos poemas poeta amigo. A temática do conto é pertinente ao momento. Parabéns a ambos... Assim é este blog, tudo show! Feliz Páscoa a todos!

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  7. Que lindo amiga Bete, mais um para compor sua estante literária. Parabéns pela mensagem. As imagens adornam o cenário. Feliz Páscoa a todos!

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  8. Que espetáculo de conto, muita emoção e sentimento, juntos no mesmo patamar. Amiga, você encanta com seus poemas e contos. Tudo passa mensagem, de Amor e Fé. As ilustrações escolhidas deram vida ao tema. Parabéns e aplausos pelo conjunto. FELIZ PÁSCOA!

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