quinta-feira, 1 de março de 2018

Uma Certa Estação da Luz...




Estação de Trem


Estação de trem,

Uns partem, outros veem.

Mas  quem?



Corpos esquartejados,

Suados, malcheirosos,

Um pouco de perfume francês

Comprado nas calçadas e

Galerias da Prestes Maia.

Alguns olham para o céu,

Outros olham para o chão.

As pálpebras cansadas tentam fechar.

Os olhos embaçados querem chorar.

Lágrimas não têm

Na estação de trem,

Uns partem outros veem.

 Corpos feios, moídos, perdidos.

Sonham com um colchão,

Um caixote, um caixão.

Sonham com um amor que não vem.

Sonham com a alegria,

E só tristeza eles têm.



A moça bonita, tão feia...

Seus cabelos grudados

Não valem um vintém.

Seu corpo suado só feridas contem.

Feridas que sangram,

Que queimam, que marcam,

Que lembram que um dia

Pensou que seria

Uma esposa somente,

Contente em seu lar.

E um amante impotente,

Nem isso terá.


O menino pivete

Esperando dar o bote,

Que sorte, ninguém percebeu.

Seus olhos brilharam,

Seu corpo dançou,

Quando a mão traiçoeira

Uma corrente levou.



A menina criança,

Com seu dente de leite,

Entrega seu corpo,

Sua alma, sua fé,

Ao deleite de homens,

Em troca do nada,

Do pão que o diabo,

Um dia amassou.


O velho encurvado,

Sentado, coitado,

Espera também.

Sua boca sem dente,

Espera contente,

Espera à sorte,

No vagão do trem.



E lá na estação,

Na estação de trem,

É a vida que parte,

É a morte que vem.



Jorge Leite
Todas as fotos são da Estação da Luz, em São Paulo.
Todas as fotos são do Google.

10 comentários:

  1. Espetacular! Há tempo não via uma crônica em versos tão primorosa... Lembrou-me Fernando Sabino!

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    1. Obrigado amigo,meu corpo flutua até agora de tanta felicidade por seu elogio. Não mereço tanto, mas agradeço. Um abraço.

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  2. Sensacional momemto poético, versos de elite que foram tecidos com maestria. Sentimentos extraídos no real, histórias do vai e vem da vida. Show de imagens. Deslumbrada aqui com muita poesia dentro da poesia. Parabéns pelo conjunto. Aplausos mil!

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    1. Como Disse Cecília Meireles em seu poema "Motivo": "Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta." Somos cantores Betinha, e cantamos a vida. Beijos.

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  3. Maravilhosa poesia! Versos primorosos, em um poema que transmite sentmentos, verdades diárias...chegadas e partidas, contrastes dos momentos. Parabéns poeta Jorge! Mais um poetizar para nosso deleite.

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    1. Obrigado Paulo, também gosto dessa poesia, adoro observar a vida em volta e ela é cheia de contrastes. Um abraço.

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  4. Belíssimo poema em todos os detalhes, versos recheados de sentimentos, verdades contidas nas mensagens, o dia a dia das pessoas passantes. Parabéns! Imagens fabulosas. Poeta Jorge, tu és bom no que faz. Bravo!

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    1. Amigo Maciel,adoro andar de ônibus, somente para observar as pessoas passantes. É como ler um livro sobre comportamento, sobre o dia a dia das pessoas. Obrigado pelo elogio. Um abraço.

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  5. Gostei demais da leitura. Um poema muito lindo e realista, estou encantada com as imagens e a maneira como foi desenvolvido a temática. Parabéns, um blog com muito conteúdo. Abraços!

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    1. Querida Geovanna, normalmente as imagens complementam as poesias ou os textos; dessa vez fiz o inverso, o tema principal são as imagens, depois complementei com a poesia. O resultado final também gostei. Poesia e imagens interagem entre si. Obrigado, Um grande e afetuoso abraço,

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