sábado, 21 de julho de 2018

José Waldeck


FLECHA

Me hipnotiza
o teu ar de Monalisa.
Já me enfronho
neste teu olhar tristonho
e vasculho,
sutilmente, num mergulho,
com meu verso
a sondar teu universo.
Me aventuro:
flecha lançada no escuro.
Te persigo,
mas não ouves o que eu digo.
Se me atrevo,
ignoras o que escrevo.
Ademais,
tu não captas meus sinais.
Adivinhas
o que há nas entrelinhas?
Distraída,
recatada ou metida?
Hesitante?
Indiferente? Distante.
Se me lanço,
faz-se inútil – não te alcanço.
São e salvo,
padeço, longe do alvo.
Mas... Enfim,
o que esperas tu de mim? 

(José Waldeck, Maceió, 22/02/2018)
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FEITO PARA MAR (O BARCO)

cansado de navegar
retorno à minha aldeia
lanço âncora na areia
me esparramo à beira-mar

e ali, eu me acrianço
à brisa, ao sal, ao sol
do nascente ao arrebol
num merecido descanso

mas quando a noite vem
já é hora de zarpar
regresso ao mar, sigo além

para parque alguns são feitos
eu fui feito para mar
apesar dos meus defeitos

(José Waldeck)
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https://youtu.be/tm4hQe_zRHI


Notas de Rodapé
Ritmo no poema

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O Ritmo apresenta-se de forma diferente no poema e na música, embora as duas artes apresentem afinidades e um tal parentesco histórico que se chega a classificar um determinado gênero de poesia como lírico.
A música se rege pelo compasso, que é dividido em tempos.
O ritmo é representado, na pauta musical, pelas figuras (notas musicais e pausas).
No poema, há a figura da métrica que não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo.
É o ritmo que dá beleza à música, na visão de muitos músicos, bem como ao poema, na visão de muitos poetas, como o simbolista francês Paul Verlaine, que em versos famosos diz: "Antes de tudo, música". Naturalmente, Verlaine se refere ao ritmo no poema, além dos efeitos sonoros que se pode atingir através do uso de vogais e consoantes. Aliás, o ritmo era caro a todo o Simbolismo.
O ritmo pode assumir importância tamanha no poema, que, mesmo um poeta vanguardista como Ezra Pound afirma que quando um poema se afasta muito da música, começa a degenerar. Também Maiakovski em "Como fazer versos" descreve como, a partir de uma percepção de um ritmo (como o do seu próprio caminhar), podemos transformar o ritmo em sons e palavras, logo em versos.
É interessante notar que, a partir da poesia do também simbolista Mallarmé, a noção de ritmo pode não estar mais alinhada à noção de verso, inclusive, podendo a distribuição espacial do texto poético na página determinar o seu ritmo de leitura, embora possa-se contestar a isto afirmando que esta distribuição espacial apenas delimite as pausas de leitura entre um verso (livre) e outro. Apesar da delimitação de pausas em uma página, explorando os seus espaços em branco e criando uma espécie de pauta, aí está o ritmo poético novamente.
Leitura Complementar
Verso livre

Versos livres, também chamados irregulares, em língua portuguesa definem-se como versos que não possuem restrição Métrica. Origina-se do francês vers libre, donde seu uso sistemático é chamado de versilibrismo. Sua definição, no entanto, feita em oposição ao verso regular, ou metrificado, é diferente nas diferentes tradições literárias, posto que a métrica é diferentemente abordada em cada uma delas.

Utilizados largamente pelo modernismo, foram introduzidos na poesia através de antigas traduções, principalmente da Bíblia, em mais de uma língua. Posteriormente, alguns poetas, principalmente românticos alemães o usaram.
Observe-se, no entanto, que renascentista e francesa o sistema métrico do poema exigia um número exato de sílabas poéticas e acentos fixos em todos os versos, na tradição das línguas anglo-saxônicas o sistema métrico não era tão exato. Mesmo na língua portuguesa temos exemplos de cantigas desde o galego-português e também desde que houve a separação entre música e poesia, que variam metricamente em um verso ou outro. Não há, por exemplo, estranheza no fato de que, no século XIX, Emily Dickinson utilizasse versos, alternadamente, de 8 e de 6 sílabas poéticas em um poema, por exemplo.
Em 1855 começa o uso sistemático do verso livre, com o poeta norte-americano Walt Whitman, tendo Charles Baudelaire publicado um poema em verso livre em 1861. O introdutor do uso sistemático do verso livre na França foi o poeta Jules Laforgue, em 1880, também tradutor de Whitman.
Sendo a França, mais especificamente Paris, o centro do mundo cultural na época, pode-se dizer que é a partir da sua incorporação à poesia francesa que o verso livre passa a ser visto como um recurso com grande potencial renovador, tornando-se constitutivo daquilo que costuma chamar-se de poesia moderna. Neste contexto do surgimento de um desejo de inovação da poesia e do seu próprio conceito, ele surge quase juntamente com o poema em prosa, introduzido pelos românticos e popularizado no período simbolista na França.
Ou seja, resumindo, o verso livre não se baseia em critérios predefinidos, mas em decisões que o poeta toma intuitivamente ou em normas por ele criadas, podendo ter maior afinidade com a prosa. Normalmente utiliza o ritmo natural da fala, podendo, também, apresentar musicalidade. 
Walt Whitman




















18 comentários:

  1. Uma página espetacular, dois maravilhosos poemas, com versos encantadores do nobre amigo poeta José Waldeck. As imagens ilustrativas colossais do também poeta e ilustrador, Jorge Leite, engradecem ainda mais o cenário poético. Já o conteúdo presente na nota informativa e educativa de rodapé está um luxo, grandes ensinamentos e bem importante para o Universo da Poesia. Hoje, os poetas brilham no blog. Parabéns a todos e aplausos mil pela arte final. Ótimo Final de Semana aos amigos, amigas e leitores! Abraços... Show!

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    1. Obrigado, pela suas observações pertinentes e sempre bem-vindas, querida amiga poetisa Elisabete Leite! Obrigado, também, prezado amigo Jorge Leite, pelos textos complementares e enriquecedores. Abraços!

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  2. Dois excelentes poemas do amigo poeta Alagoano José Waldeck, um filho da casa, do blog Maçayó. As deslumbrantes imagens ilustrativas bem pertinentes aos temas abordados pelo poeta. Jorge Leite, amigo poeta, se supera a cada dia no cenário de arte. A nota de rodapé nos informa sobre poemas clássicos e modernos, os versos rimados e livres. Bem educativa! Parabéns aos poetas pela página rica em conteúdo e beleza. Abraços e feliz sábado a todos!

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    1. Valeu, querida amiga Geovanna! Muito obrigado! Um grande abraço!

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  3. É a RAZÃO e o CORAÇÃO na luta contra o fascínio daquele olhar. É a busca do inatingível, o confronto da dúvida e da dor. Belíssimo! Parabéns, Waldeck, você é FEITO PARA O MAR, e no seu barco, ficamos à deriva e emocionados.!
    Apreciei muito RITMO NO POEMA e VERSO LIVRE que, para mim, foi um aprendizado. Aplausos a todos.

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    1. Muito grato pela sua leitura atenta dos poemas e das notas de rodapé, prezada Mary Almeida! E obrigado pelo carinho. Feliz final de semana!

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  4. Nossa!!! Eu não sei se quero ser aquela flexa, ou aquele olhar de Monalisa que inspira tanto o amor do poeta. Eu só sei que estou encantada com tudo: os poemas do Sr. José Waldeck e as lições que aprendi sobre poesias. Parabéns a todos. No aguardo de outras maravilhas...!

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    1. Essas palavras acima são da Ligia Magalhães que se encontra doente. Pediu pra que eu repassasse. Um abraço.

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    2. Corrigindo: flecha e não flexa. Obh

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    3. Que bacana, Lígia Magalhães, o seu comentário (repassado pela amiga Mary Almeida)! Muito obrigado e meus votos de recuperação rápida e plena! Saúde! Um abraço!

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  5. Um belíssimo momento de arte poética, dois lindos poemas do amigo poeta José Waldeck. Com imagens dignas de aplausos, o amigo poeta Jorge Leite escolheu com muita naestria, deixando o cenário pertinente a temática. Uau, a nota de rodapé além de informativa também esclarece muitas dúvidas, mesmo para quem é poeta. Só nos resta aplaudir! Parabéns poetas pela maravilhosa arte final. Abraços e bom sábado a todos. Beleza pura!

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  6. Salve Jorge! O homem é fera nas pesquisas e notas de rodapé, né Maciel? Obrigado pela atenção, mais uma vez, caro amigo! Feliz FDS!

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  7. Uau, que belíssimos poemas; o amor escondido nas entrelinhas dos versos, tem que olhar com o coraçao. O poeta amigo José Waldeck sabe versejar a amada. As belas imgens ilustrativas bem pertinentes a temática dos poemas. O poeta Jorge Leite é notável na nota informativa de rodapé, muito rica em conteúdo. Parabéns aos poetas pelo conjunto. Waldeck, tu és o cara! Um show de página! Abraços

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    1. Muito grato pelo seu comentário, caro Paulo! É uma honra contar com a sua apreciação. Um abraço, meu amigo!

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  8. É muito agradável participar e interagir deste sensacional blog. Pois estou sempre tendo a oportunidade de me deleitar com grandes momentos poéticos. A página contém belíssimos poemas do amigo poeta José Waldeck, deslumbrantes imagens ilustrativas e muito conhecimento. O amigo poeta Jorge Leite sabe nos emocionar, unindo o útil ao agradável. A nota de rodapé é pertinente ao cenário poético. Tudo perfeito, me resta parabenizar-lhes, poeta e ilustrador/poeta, e aplaudir o sucesso do blog. Abraços a todos!

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    1. Que bom reencontrar você por aqui, Karen! Sua presença e seus comentários são sempre mui agradáveis não só para mim, mas para todos nós que fazemos este blog. Muito obrigado! Tenha uma semana bem feliz, prezada amiga!

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  9. Mais uma vez, muito obrigado, caro poeta e amigo Jorge Leite: pela cuidadosa edição, pelos enriquecedores textos adicionais e, sobretudo, pela valiosíssima amizade! Minha gratidão, também, aos amigos Elisabete Leite, Geovanna, Karen, Lígia Magalhães, Maciel, Mary Almeida, Paulo e demais frequentadores deste blog. Um grande abraço, prezados e queridos amigos!

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    1. Bom dia querido conterrâneo José Waldeck, eu que me sinto premiado por poder ilustrar seus poemas. "Flecha" é uma obra-prima em jogo de palavras e rimas perfeitas. Quanto ao "O Barco" é perfeita em uma poesia "figurativa", Todos nós, em vários momentos, nos identificamos como "O Barco". Parabéns.

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