quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Um Conto Matuto e Um Encontro Poético com José Waldeck




MILAGRE NO CANAVIÁ

De: Socorro Almeida/Cândida Nunes

Quando eu saio bem cedim pra trabaiá, eu não tenho muito pra escuiê botá nos pé pra mode guentá os pedreguio da estrada. Minha apragata é mermo a minha butina pra usá na roça. No caminho eu sempre encontro um cumpade ou outro pra cumprimentá.
Dia, cumpade! Ocê vai hoje pro forró de dona Salomé?
Zé me perguntou isso tirando o chapéu todo amassado e com um sorriso desdentado...
Homi, sei não, visse? Só se eu num tivé muito infadado! Inté mais vê!
Respondi pensativo, porque bem que eu queria encontrá a fia da cumadre Salomé. Eu já perdi as conta de quantas vez conversei com essa formosura de menina, que mais parece tê os encanto da fulô de Baobá, e eu não tive corage de me declará, até porque ela passou uns tempo fora e voltou diferente, com uma tristeza que dava dó! Mas, deixa pra lá. Acho mió tirá esses pensamento da minha cabeça e sentá a inxada no chão, que o sol já vai alto e o tempo é curto pra tudo que eu tenho que fazê.
De repente, eu escutei uma zoadinha que vinha lá de dentro do canaviá. Alguma coisa rastejava no meio da foiage?  Seria uma dessas cobra peçonhenta e venenosa que aparece por aqui?  Fiquei quietinho pra escutar mió... Era cobra não! Era um choro bem baixinho, meio abafado, ficando cada vez mais alto, enquanto me aproximava, até que tive a certeza. Era um choro de bebê!
Jesus! Cumo é que alguém tem coragem de fazer uma maldade dessa?! – Eu perguntei em voz alta, me agachando mode pegá o minino. Sim. Era um minino homi, tão pixototinho que tive medo de machucá ele.
Corri pra casa sem falá com ninguém. Encontrei a véia Maria, minha mãe, à beira do fogão de lenha, todo esfumaçado. 
Mãe, olha o que eu encontrei lá no canaviá! – Minha véia arregalou os zóios e espantada disse, compadecida:
Tadinho! Jesus! -  Mãe foi logo tomando providência de cuidá do bebê e disse quase gritando:
Avia, homi, corre na venda do seu Chico e me traz umas coisas que vou te dizê!
Anotei tudo rapidinho e fui falá com seu Chico, pra pagá tudo no finá do mês.
Oxi,  Renê, pra quê tu qué chupeta e mamadeira, homi!?
Pra dá de presente!  - Respondi avexado
Corri de volta pra casa, já preocupado. O bebê precisava cumê, tomá muito leite de cabra, que era o que num fartava lá em casa.
O dia terminou sem novidade e sem aperreio. Juninho dormiu a tarde toda nos braços da vovó Maria, que me disse:
Meu fio, ocê não vai não, pro forró de Salomé? – Esse pessoá antigo parece inté que lê os pensamento da gente. Votz!
Vou sim, mãe.  Eu eu tive uma idéia. Tomara que dê certo. – Respondi correndo pro quarto pra trocá de roupa. Muito estranho a véia Maria não perguntá nada e me oiá com um sorrizinho mais estranho ainda quando me aproximei dela...
Bença, mãe! Não me espere acordada e bota o Juninho pra dormí na rede. Desse jeito ele vai ficá manhoso!
E lá fui eu, feliz da vida, sabendo que encontraria minha amada em quarqué lugá da casa. Lá tava ela com aquela tristeza de sempre.  De sempre não, porque Candinha nunca foi uma moça triste!  Alguma coisa tava mexendo com a cabecinha dela e eu tava disposto a descobrí tudo naquela noite. Então...me aproximei devagarinho, mas decidido... e perguntei:
Candinha, ocê faz muita questão dessa festa? – Nesse instante senti uma emoção tão grande quando vi os zoinhos dela sorrindo pra mim, todo marejado de lágrimas, que me deu coragem de segurá a mão dela e quase gritei por causa da zoada lá de fora:
Quero te contá um segredo. Vem mais eu inté minha casa.  – Ela não fez objeção, nem soltou sua mão da minha.
Óia, Renê... Que seje muito importante, visse? Tu nem deixou eu falá com mainha!  - Falou meio zangada 
Tu vai gostá de vê o que eu tenho pra te mostrá!  - Respondi feliz 
Pedalamo por uns 10 minutinhos, e finalmente chegamo. A véia Maria já tava de prontidão, esperando na porta da sala. Ô muiê pra adivinhá as coisa! E se dirigiu pra Candinha, dizendo:
Óia praqui! Que coisa mais linda!!
Pra surpresa minha, quando Candinha butou os zóio no minino, caiu de joeios no chão, e quase sem conseguí falá, perguntô:
Como foi... Como foi... que ocê encontrô esse bebê? – Silêncio...
Pronto! Agora tendi tudo! Eu já não queria sabê de nada, sabê a razão que fez Candinha abandoná o bebê no canaviá?! Pra quê? Caí de joeio tombém e disse, levantando ela do chão:
Candinha, num se avexe não! Eu só quero sabê se tu qué casá com eu!
Marminino, o casamento da gente foi a festa mais bunita daquelas redondeza! É claro que nóis dois num precisou de nenhum minino pra sê nosso pajem.  Juninho agradece. Obrigado!!



  
Encontro Poético com José Waldeck



CALIENTE

Na ponta da língua
trago teu sabor.
Teu corpo eu trago,
saciando a fome:
amor que não some;
paixão que não míngua.
Na calma de um lago,
onde não naufrago,
minh’alma se acalma.
És como um licor
que me apetece.
Tens cheiro de flor.
Agridoce gosto.
Inverno que aquece
em pleno agosto.

José Waldeck


FEMINIL

Mulher: orgulho da raça.
No mundo, um sustentáculo,
quintessência, oráculo,
beleza, divinal graça.

Força, na delicadeza.
Desde a mais tenra infância,
a natural elegância.
Há garbo na singeleza.

Amizade. Acalanto.
Maternidade. Paixão.
Cada uma, um encanto.

Nossa bendita costela.
Apogeu da Criação.
E a vida se fez mais bela...

José Waldeck





ÍNDOLES


Flores nascidas no morro,
no subúrbio da cidade,
brotam na adversidade,
clamam aos céus por socorro;

promessas de um tempo novo,
prezam a honestidade,
movem a sociedade:
são o orgulho do povo.

Outras, em berço de ouro
nascem, têm vida bisonha,
revelam-se mau agouro,

tomam o país de assalto.
Destas, morro de vergonha:
ervas daninhas do asfalto.

José Waldeck









https://www.google.com.br






















11 comentários:

  1. Um belíssimo e regional momento de arte, em prosa e verso. O encontro de dois grandes poetas, Socorro Almeida e José Wakdeck, cada um com o seu adorável estilo. Socorro traz um lindo Conto Matuto, uma narrativa envolvente, em grande estilo. Já o poeta Valdeck compartilha lindíssimos Poemas para nosso deleite. Tudo maravilhoso nessa página, as ilustrações estão impecáveis e pertinentes aos temas abordados pelos autores. Encantada com esse encontro. Quero parabenizar aos poetas pelas suas obras de arte e também parabenizar o poeta Jorge Leite pelo conjunto. Quero também agradecer a participação da amiga Cândida Nunes. Um bom dia a todos e abraços...

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  2. Dia cumade Sô e cumpade Zé! Eita, que lindeza de página amigos poetas... Um belo Conto bem Caipira, da nossa Cultura Regional e muita tradição, Socorro Almeida foi precisa no vocabulário matuto. O poeta José Waldeck traz belíssimos poemas rimados que enriquecem ainda mais a página. As ilustrações compartilhadas completam as temáticas relacionadas entre si. O poeta Jorge Leite deu seu toque especial ao cenário. Vamos aplaudir! Parabéns aos poetas. Abraços a todos...

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  3. Que bacana compartilhar este espaço com artistas tão criativos (Socorro Almeida, Cândida Nunes e Jorge Leite) e amigos tão leais (Elisabete Leite, Paulo etc)! Sou muito grato a todos vocês! Abraços!

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  4. Ufa, tudo muito lindo por aqui! Um Conto belo e bem cultural, pertinente ao mês do folclore, agosto, um rico e criativo vocabulário matuto da nossa amiga poetisa Socorro Almeida e da amiga Cândida Nunes. Já o poeta Valdeck chegou e brilhou com seu Poemas lindos e rimados, uma combinação perfeita. As ilustrações estão impecáveis e completam os temas. Um show de tradição! Jorge sempre dando seu toque especial. Parabéns aos poetas e abraços a todos. Feliz entardecer para vocês!

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  5. Peço licença aos amigos pra apresentar minha co-autora, Cândida Nunes,companheira da Academia Afogadense de Letras, fazendo parte do meu conto MILAGRE NO CANAVIÁ e agradecer imensamente aos companheiros pelas palavras de carinho diridas ao meu conto, que, por sinal, é o primeiro que eu escrevo.
    José Waldeck, eu comparo suas palavras à uma batuta do maestro que, em seus gestos precisos, oculta notas de músicas que emocionam e elevam nossa alma. Sensualidade e beleza no seu poema CALIENTE; em FEMINIL suas palavras soam na mais profunda essência em alusão à mulher, trazendo em ÍNDOLES o lado "contrário" dessa figura tão reverenciada no mundo poético.
    Parabéns ao poeta Jorge Leite pelas ilustrações, dando mais beleza ao blog.
    Obrigada a todos. Abraços

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    1. Corrigindo erro de digitação: ..."dirigidas"...

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  6. Peço licença para "invadir" esse recanto poético, no sentido de agradecer aos poetas na alusão ao meu nome como parceira da poetisa Socorro Almeida, a quem dedico imensa admiração por seus belíssimos poemas. Ela é uma figura notável de nossa Academia. Também me reporto aos que fazem este blog como único intuito de divulgar belezas como estas, sem cunho financeiro, cujo único objetico é divulgar os trabalhos de pequenos/grandes poetas como nós. Parabéns a todos!
    Cândida Nunes

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    1. Agradecemos-lhes pela ilustre visita ao nosso Blog e estamos lisonjeados com a sua interação. Sinta-se como se estivesse em sua casa. Seja bem-vinda! Volte sempre, Cândida Nunes! Parabéns! Abraços e boa tarde!

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    2. Cândida Nunes, espero que continue "invadindo" o Blog, e que nessas suas invasões traga seus escritos, contos, poemas, crônicas e comentários. Como você bem frisou, nosso blog tem o intuito apenas de divulgar nossos trabalhos. Não temos propagandas no blog. Entenda como "nosso" todos os que já publicaram em nossas páginas. Eu, particularmente, estou muito feliz com sua presença. Volte Sempre
      Quanto a Socorro Almeida já conhecemos sua arte de poetisa, e fico lisonjeado por ter publicado seu primeiro conto. Fico no aguardo do 2º, 3º .....

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    3. Amigo Jorge, com certeza voltarei sempre, com poemas, textos ou contos, enquanto me permitirem, porque desse blog eu não saio mais!! Rsrsrs.
      Bjos

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  7. Uma maravilha essa arte regionalista, um encontro de mestres. Bem interessante e criativo o conto da amiga, gostei bastante. Pois é Socorro, os belíssimos poemas do poeta Waldeck são como melodias, as palavras fluem com harmonia e muita sonoridade. As imagens são deslumbrantes. Parabéns aos poetas pela linda e expressiva página. Abraços a todos...

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