domingo, 30 de setembro de 2018

Uma Tarde de Domingo com José Waldeck

Edição Nº 229
 METAMORFOSE

(José Waldeck)

NÃO (você me diz)
NAU (em mar revolto)
MAU (é quem maldiz)
MAR (perigo envolto)
DAR (o meu amor)
PAR (forme comigo)
POR (com destemor)
DOR (eu te fustigo)
DOM (de aguerrir)
BOM (o que vier)
SOM (bom: é te ouvir)
SIM (você me quer)

Insisto em crer
que
TUDO
pode acontecer.

De letra em letra
uma palavra se altera.
Verso após verso
é o meu modo de espera.

Espera
e determinação
que não terão fim
até ver
se transformar
o seu
“NÃO!”
em
“SIM!”.

Obs.:
   Na estrofe inicial a palavra NÃO foi transformada na palavra SIM, trocando-se uma letra de cada vez. Esta brincadeira com palavras (que existe, de fato) foi o ponto de partida para compor este poema onde me propus a provar a alguém que, pelo menos na teoria, era possível a sua negação (rejeição) inicial ser revertida para uma aceitação.


FALO

(José Waldeck)


Pretendendo que ela escute,
eu falo.
Me expresso em alto e bom som
e com latente prazer.
Se meu som não repercute,
ao menos me desentalo,
pois desse jeito propalo
aquilo que tenho a dizer.

Eu não falo só de boca,
com a boca que quer seu batom,
cuja voz torna-se rouca.
Mas ela é cabeça oca,
faz até papel de mouca
e eu desperdiço esse dom.

Então, falo com os olhos,
que ficam até zarolhos.
Falo pelos cotovelos.
Falo por gestos, com as mãos
que deslizam em seus cabelos.
Mudo a estratégia e os apelos,
transformo em sins seus nãos.

Tenho um humor que se alterna
– ora estou bravo, ora manso.
Ante peleja tão terna,
quando a voz clama descanso,
dou uma trégua, me calo.
Nessas horas de sussurros,
gemidos, suspiros, urros,
meu porta-voz é meu falo.

PRISMA (SÃO SEUS OLHOS...)

(José Waldeck)


Não!
O céu não está tão azul.
O ar não está nada puro.
O mar não está pra peixe.
O mundo não tá tão seguro.
A ética, os bons costumes
e a moral não estão em alta.
(Porém, você crê no futuro.)
São seus olhos...

Não!
Eu não tenho tantas virtudes
e tampouco escrevo bem.
Nem tudo o que digo é verdade.
Nem falo o que lhe convém.
Não sou um sujeito exemplar
e nem esbanjo simpatia.
(Contudo, você diz “amém!”)
São seus olhos...

Sim!
Há dois astros luminosos
a cintilar noite e dia;
Vesgo e cativante charme
que irradia alegria.
Há “sex appeal”, há “frisson”,
e tudo o que há de bom
neste mar de euforia.
São seus olhos.
 
ESQUINAS
(José Waldeck)

Urbe: organismo vivo,
um corpo em crescimento,
incessante movimento,
incansavelmente ativo.

Suas artérias pulsantes:
Ruas, becos, avenidas,
por onde trafegam vidas –
nutrientes importantes.

Têm nome seus logradouros,
nomes em placas escritos,
orgulhos imorredouros.

Pública e viva história.
Saltam das placas gritos
que reivindicam memória.

JURO

(José Waldeck)

Ah! Esse amor...
Nascituro,
há de ser,
com razão,
a paixão
que procuro.
E se for,
sem pudor,
com determinação
e afoiteza,
com certeza,
eu me aventuro.

Pulo cerca,
encosto na parede
e não mais vou ficar
em cima do muro.
Daí, então,
me corrijo
e até me regenero
e me apuro.
Largo mão
desse jeito de ser:
inseguro, indeciso,
imaturo.

 Ah, por você...
não seria um salto no escuro.
E, com sofreguidão,
já, agora,
velhos dados eu reconfiguro
faço uma repaginação,
atualizo o arcaico sistema
que ainda roda,
opera e vigora
nesse meu obscuro
e facínora
cauteloso coração.

Notas de Rodapé


A expressividade do Preto e Branco

     Quando a Fotografia surgiu oficialmente, em 1826, a imagem captada pela câmara obscura de Niépce era em tons de cinza. Hoje, praticamente dois séculos depois do feito, a fotografia em preto e branco ainda está em auge. Da heliografia (“gravura com a luz do sol”, o processo de Niépce) ao digital, a elegância e o charme do estilo prevaleceram a uma série de evoluções técnicas.
     Na Fotografia, as cores têm o poder de trabalhar com as emoções do observador. Consciente ou inconscientemente, a composição cromática influencia em como alguém define a imagem – positiva ou negativamente. Em preto e branco, como não existem cores além dos tons presentes na escala de cinza, essa teoria funciona com o preto, o branco e o cinza. Estudando separadamente cada um deles, identificamos as sensações e as associamos às nossas memórias.
     O preto é a cor do absolutismo, do poder; na Fotografia, funciona da mesma maneira que na Moda, concedendo elegância e superioridade. O branco transmite o oposto, tornando-se a personificação de pureza e delicadeza e ampliando os sentidos de espaço e percepção. Cinza, a cor mais presente em toda a imagem monocromática (ironicamente chamada de “preto e branco”), representa a estabilidade e o equilíbrio.
     Uma fotografia em escala de cinza pode conter várias justificativas. Alguns fotógrafos preferem utilizar os recursos monocromáticos para deixar a imagem naturalmente mais expressiva. Num retrato, sem a atenção voltada às cores, a observação se concentra na expressão de quem é retratado.
     Em qualquer imagem, contraste é a alma da interpretação, seja ele acentuado ou não. E na fotografia em preto e branco, o assunto é ainda mais importante. O contraste é o efeito visual que a iluminação produz sobre o objeto. É a famosa diferença entre a luz e a sombra, onde as áreas claras são chamadas “altas-luzes” e as escuras “baixas-luzes”. Alterá-lo significa aumentar ou diminuir a intensidade da diferença entre as altas e as baixas luzes. Na fotografia monocromática essa é a característica mais importante e, por isso, é preciso entender como domar a iluminação.
     Como fotógrafo, é possível controlar os efeitos do contraste de cena através de alterações físicas no esquema de iluminação. Ao mover a fonte de luz para mais perto do assunto, por exemplo, aumenta-se o contraste. Posicionando-a lateralmente, o efeito se destaca ainda mais. Além de truques como esses, uma série de equipamentos podem ser utilizados, como rebatedores e difusores.
     De fato, a fotografia em preto e branco é uma explosão de sentimentos. Expressiva e forte com seus contrastes, encanta os fotógrafos por abrir a posição de mistério quanto às reais cores que fizeram parte do clique. É psicologicamente inquestionável e imensuravelmente encantadora e envolvente. 




Nicéphore-Niépce (1765-1833)

O francês Joseph Nicéphore Niépce é o autor da imagem fotográfica mais antiga que conhecemos, feita em 1826 ou 1827 sobre uma placa de estanho sensibilizada com sais deprata.
            
      Nascido em 1765 em França, no seio de uma abastada família, dedicou grande parte da sua vida à tentativa de captação de imagens que pudessem ser utilizadas na Litografia.
     Iniciou um processo, a que chamou Heliografia (escrito pelo sol) em 1793, mas rapidamente essas imagens desapareciam. Com 40 anos abandonou o exército francês para se dedicar exclusivamente a inventos técnicos, graças à fortuna que a sua família possuía.
     Em 1826 consegue pela primeira vez fixar de forma permanente uma imagem, utilizando uma placa de estanho que cobriu com Betume branco da Judeia. 
Foto mais antiga tirada por Niépce, por volta de 1826.
       Este material tinha a propriedade de endurecer ao ser exposto à luz solar, depois de exposto durante oito horas retirou as partes não solarizadas com uma solução à base de essência de alfazema.
     Naturalmente obteve uma imagem em que a ausência de meios-tons era notória, não servindo assim ao seu propósito de obter imagens que pudessem ser utilizadas em litografia, o que motivou nele uma ainda maior motivação no aperfeiçoamento do seu processo.
     Certamente não teve a noção que ao fixar essa imagem da vista do sótão da sua casa de campo, criou aquela que é considerada a primeira fotografia que conhecemos.





 
 
Pixabay - Fotografia em Preto e Branco