domingo, 3 de fevereiro de 2019

Almanak de Domingo - Folhetim Sem Nexo

Ano II - Edição Nº 282 - Tema Adulto
Tema das Imagens - Totentanz - Dança Macabra

Dança macabra de Tallinn. Estónia. Por Bern Notke (1435-1509).


Tô Tentando

Tô tentando entender
As voltas que o mundo dar,
Ontem caiu Mariana
Nada fizemos por lá.
Hoje caiu Brumadinho,
E a Vale continua lá.

Fui chamado de Canalha,
Por minha opinião publicar
Disse que Lula Livre,
Seus irmãos, não quis enterrar
Agora Lula preso,
Quer no enterro estar.

Com essas rimas quebradas,
É que eu tento explicar
As voltas que a vida dar,
Tentando nos ensinar
Com uma queda aqui,
Outra queda “acolá”

Tem um tal de ENEM
Que diz o melhor colocar
Mas são tantas exceções
Que vaga não tem por lá
E pensar em entrar
Meus Deus, deixa prá lá

 Minha irmã foi ao médico
Com a pressão bem prá lá
Passou remédio aqui.
Passou remédio por lá.
Depois mandou para casa
Sem receita prá comprar

Então fico a perguntar
O que ela fez por lá
O doutor do coração
Só no mês que virá
E agora meu irmão?
Só temos Deus prá cuidar

São tantas mentiras ditas
São tantas mentiras no ar
Tem uma tal de Rede Globo
Que quer só nos enrolar
Não publica as verdades
Só o BBB quer mostrar.

Vou deitar para cochilar
Tentar sonhar colorido
E quem sabe quando acordar
Um beija-flor na janela
Esteja apenas tentando....
minha camisa sujar..

Êta vida danada de boa......
Vá tentar entender.....

Jorge Leite, 30/01/2019

Pieter Brueghel. O triunfo da Morte, c. 1562.
Vale a pena dar uma olhada:
Desastre em Brumadinho: Vale, um exemplo mundial de incompetência e descaso.
Posted by Thoth3126 on 30/01/2019

“Todas as barragens da Vale estão em risco e podem se romper a qualquer momento. A empresa não quer gastar o dinheiro necessário para recuperar o meio ambiente”. A afirmação é de um dos mais solicitados engenheiros ambientais do Brasil e que já prestou, por um longo período, consultoria à Vale. Por questões óbvias, ele não quer se identificar. Não é preciso, porém, ser perito para acreditar na veracidade desse testemunho. A repetição da tragédia demonstra que a empresa é, no mínimo, negligente.


Dança da Morte. Igreja de Sta Maria. Beram, Croácia. 1474.

Dança macabra
Dança macabra ou Dança da Morte (em francês “Danse macabries" , em alemão Totentanz), é uma alegoria artístico-literária do final da Idade Média sobre a universalidade da morte, que expressa a ideia de que não importa o estatuto de uma pessoa em vida, a dança da morte une a todos. Há representações de Danças macabras na literatura, pintura, escultura, gravura e música.
Acredita-se que representações artísticas de Danças macabras surgiram no século XIV, mas os detalhes sobre o lugar e forma em que se desenvolveram inicialmente são muito discutidas. Alguns estudiosos pensam que se originou na França e que estaria relacionada a peças teatrais que dramatizavam a ideia da Morte. Uma das representações artísticas mais importantes de uma Dança macabra foi um afresco pintado em 1424 no Cemitério dos Santos Inocentes, em Paris, considerado por alguns estudiosos como o ponto de partida desta tradição pictórica e que era acompanhado por versos sobre o tema. Na primeira edição do poema Dança macabra (La Danse macabre), publicada por Guyoyt Marchant em 1485, foram incorporadas gravuras inspiradas no afresco do Cemitério, que foi destruído no século XVIII. Essa primeira edição dos versos da Dança macabra, de autor anônimo e de qualidade medíocre, foi um êxito editorial.

Outra hipótese para a origem do tema da Dança macabra é um poema do convento dominicano de Wurzburgo, na Alemanha, de cerca de 1350. Outros autores consideram a Espanha como possível lugar de origem, pois o tema do "Anjo da Morte" era comum ali por influência mourisca e hebreia.

Estas representações foram produzidas sob o impacto da Peste Negra (1348), que avivou nas pessoas a noção do quão frágeis e efêmeras eram as suas vidas e quão vãs eram as glórias da vida terrena.

Destacam-se ainda trabalhos de autoria de Konrad Witz em Basileia (1440), Bernt Notke em Lübeck (1463) e xilogravuras de Hans Holbein, o Moço (1538).

As cenas finais do filme O Sétimo Selo de Ingmar Bergman retratam um tipo de "Danse Macabre".



Dança macabra. Pinzolo. San Vigilio. 1539. Parede da igreja virada para o cemitério.

Último Ato

Sua boca fria toca meus lábios
Como um beijo da morte
Me faz estremecer.
Suas mãos ávidas por sexo
Procuram em meu corpo
O que resta da vida.
A última gota queres beber
Não ficas saciada
Querem mais e mais, prazer.

Sua língua penetra fundo
Em minha boca seca
Em movimentos contínuos
De vai e vem
Retiras o que resta
De minha alma
Por puro prazer
Queres sentir o gozo
Da vida e da morte. Ir além.

Nessa dança frenética
De dor e prazer
Seguimos em frente
Tentando entender
A vida e a morte
Em corpos unidos, suados,
Despidos de todo pudor
Se não há prazer
Pelo menos há dor.

O êxtase que procuras
Não consegues alcançar
A morte estremece
Mas prazer não lhe dar
É na vida sofrida,
A ela é permitida.
Tudo encontrar.
E o êxtase que esperas
Só nela há de estar.

Em silêncio ficamos,
Após tantas lutas
Corpos suados molhados,
Largados sobre um lençol
Que seja de algodão ou cetim
Pegas um cigarro, ficas deitada
Levando quase morto
Sento ao teu lado
Folheio, um folhetim.

Jorge Leite, 30/01/2019
Enterro de vítimas da peste em Tournai. Chroniques et annales e Giles-le-Muisit. Séc. XIV.

Sem Nexo II

Meu corpo são cordas de um piano
Onde afinas seus dedos em profusão.
Seu toque retira sons
Que saem de minhas entranhas,
Em gritos e gemidos surdos

Sabes onde tocar
Para tirar tal nota,
Sabes onde beijar
Para me fazer sorrir,
Sabes onde morder
Para que eu possa gemer.

Meu corpo cassado de tanta imperfeição
Não entendo a vida
Nem ela me entende
Quando quero correr
Ela segue lentamente
Quando lento estou
Ela acelera, quase correndo.

Entre gritos e sussurros
Entrego-me em suas mãos
Sou corda estendida de um violão
Deixa-me tenso para poder vibrar
Seus dedos me esticam
Até não suportar

 A vida corre em uma direção
Corro em outra, sempre na contramão
Seguimos opostos sem sentido
Sempre sem direção
A vida segue para o norte
Corro para o sul, sem emoção.

Morro em seus braços
A procura de emoção
Deito-me em seu corpo
De pura ilusão
Enterro-me em te
Por distração.

É a vida seguindo seu Norte,
Sou eu seguindo meu Sul.
Queres me ver vestido
Quero me ver nu,
Quem sabe um dia tu encontres
o que não encontro em mim.

Jorge Leite - Recife.03/02/2019






Em “The Seventh Seal” (“O Sétimo Selo”, 1957), o cineasta Ingmar Bergman incluiu uma cena que se assemelha à alegoria da Dança Macabra





16 comentários:

  1. Olá, Bom dia. volta a fazer um comentário, mesmo não gostando de comentar meus trabalhos. Após publicar a página, pensei em mudar o título da mesma, mas achei melhor mantê-lo. O segundo título seria uma somatória das minhas tentativas de poetizar; ficaria assim: "Tô Tentando um último Ato Sem Nexo", Ficam os dois títulos, espero que gostem da página. Tenham um Bom Domingo. Abraços a todos.

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  2. Uma belíssima página de domingo, com um criativo e belíssimo momento poético, pois o Blog Maçayó, trouxe inovação e deslumbrantes poemas do querido irmão e grande poeta Jorge Leite, amei os dois títulos, mas os poemas são gritos de reflexões e apresentam muitos nexos, que são verdades diárias e vividas atualmente. O primeiro poema é um luxo e quero reforçar com o meu grito de alerta, versos reflexivos belíssimos e o segundo lindíssimo e com nexo. Você e o máximo e sou tua fã Jorge. As ilustrações impecáveis e as pesquisas com muitas informações, artes e curiosidades. Um show de domingo! Boas leituras a todos e parabéns Jorge querido. Um forte abraço!

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    1. Valeu Betinha, fico feliz que tenha gostado de meus versos livres. Partindo de você, uma erudita em poesias e contos, seus elogios são como uma premiação, são medalhas para serem guardadas para sempre. Beijos.

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  3. Excelente e expressiva página de domingo! O poeta amigo Jorge Leite compartilha para o nosso deleite momentos de reflexões, versos que parecem chorar, um choro de verdades, o desastre de Brumadinho mostra o descaso tão sofrido. Gostei demais ammigo dos lindíssimos poemas. As imagens ilustrativas belas e bem originais. Excelentes pesquisas informativas, textos que muito nos fazem refletir. Parabéns pela maravilha página de hoje. Aplausos para o blog Maçayó. Saudades de todos vocês e bom domingo! Abraços

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    1. Meu amigo Maciel, sinto falta de seus poemas. Aproveite esses momentos de exaltação e da vivência do amor e envie seus belos poemas. Um grande e afetuoso abraço.

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  4. Uma belíssima e criativa página de domingo, com lindíssimos poemas do grande poeta amigo Jorge Leite e seus versos de pura reflexão. O descaso gera tragédia e alimenta a desgraça e a fome do povo sofrido. Os poemas gritam alto e em bom tom pelo socorro e a esperança em dias melhores. Deslumbrantes ilustrações e comoventes relatos. Duas excelentes pesquisas informativas bem ao gosto do poeta. Amei tudo por aqi no blog Maçayó. Parabéns poeta amigo pela sua arte final e lindos versos. Aplausos mil e abraços a todos. Show

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    1. Obrigado amiga Geovanna, suas palavras são bálsamo em minha alma. Nós gritamos com rimas, sejam elas eruditas ou livres, são nossas armas. Bom final de domingo. Abraços.

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  5. "Quem sabe um dia tu encontres o que não encontro em mim". Belíssimo verso. Bateu no meu coração e ficou. Deixa a gente em êxtase, sensualidade e beleza no ÚLTIMO ATO. Parabéns, grande poeta!
    A página dos domingo com você é sempre um luxo. Eu adorei! Obrigada pela riqueza das pesquisas. Um grande abraço, e até breve!

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    1. Minha Rainha, uma boa tarde. Sempre carinhosa. Também gostei desse verso. Você notou que coloquei seu Facebook lá em cima, nos Meus Links?
      Tenho lido você sempre.

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  6. Venho aqui prestigiar o meu grande amigo poeta Jorge Leite, que hoje compartilha uma belíssima página de domingo com seus lindos versos reflexivos e sensuais. Um chamado para todos aqueles que estão distantes das grandes tragédias. Me tocou bastante o seu poema lindíssimo "Sem Nexo II" amei os versos recheados de sentimentos. Excelentes ilustrações e pesquisas informativas. Parabéns pelo show de domingo. Amigo Jorge, fiz um Acróstico para homenagear meu querido Maciel e ele fez um para mim, selando nosso amor. Você poderia compartilhar com poemas de Elisabete, eu pedi para ela organizar? Obrigada amigo poeta!

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    1. Flor de Liz, é muito gratificante publicar seus trabalhos e os de Maciel, se já eram bons distantes imaginem agora, juntos em um só abraço, em um só corpo e um único coração. Amo os dois. Fico no aguardo.

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  7. Fátima Leite Zeferino3 de fevereiro de 2019 15:53

    São lindos os seus poemas meu irmão, tudo que você escreveu na sua poesia TÔ TENTANDO são grandes verdades, o descaso é enorme e o povo é muito prejudicado. Tudo muito lindo Jorge! Beijos

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    1. Obrigado pela visita Fátima. Fico feliz por ter gostado. Amei seu comentário. Beijos.

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  8. Eita pessoal, que página mais linda e reflexiva. Cheguei atrasado mais cheguei para comentar, quero aplaudir o seu grito de alerta amigo poeta Jorge Leite. São belíssimos os seus poemas e o descaso é grande e não podemos deixar passar em branco. Vamos compartilhar e gritar o nosso grito de dor. Excelentes imagens ilustrativas, de muito bom gosto as suas pesquisas, pois tudo é pura arte. O blog está dando um show, pois é um domingo de emoções. Parabéns e abraços a todos!

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    1. Boa noite Paulo. É só o que temos feito ultimamente, "gritar o nosso grito de dor", os gritos de alegria ficaram raros em nosso País, é uma pena. Tenha uma boa noite Paulo, e obrigado pelo incentivo.

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  9. Sim, amigo, eu notei sim e fiquei lisonjeada. Estou voltando a ler devagarinho. Bete deve ter dito que estou operada dos "zoios". Bjos

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