domingo, 25 de agosto de 2019

Almanack de Domingo - O Caminho do Meio

Ano II - Edição Nº 354 - Tema Adulto
Tema das Imagens -O Caminho do Meio

ESCOLHAS

Em um lugar, não muito distante, morava um velho camponês, solitário, à beira de um largo rio. Muitas pessoas iam procurá-lo por seus grandes conhecimentos sobre ervas medicinais e por seus sábios conselhos. O velhinho, chamado na região “Véi Joãozinho’, atendia à todos com atenção e muito bom jeito, por isso era admirado e diziam boas coisas dele.
Certa vez, uma universidade de uma cidade grande resolveu fazer “dias de campo” com seus alunos da área florestal e de meio ambiente e, pela localização e pela diversidade arbórea, escolheram acampar um grupo de alunos bem próximo do sítio do velhinho, mais ainda por que o povo do lugar o indicou para orientação sobre as espécies, pois, além de grande conhecedor, ele era um cafuzo, descendente de indígenas e escravos africanos, que foram os primeiros habitantes da região.
  
A Canoa

Com poucos dias os alunos já haviam se afeiçoado ao velho, que já chamavam pelo seu apelido regional, pois ele lhes mostrava tudo o que precisavam para suas pesquisas, isso usando o linguajar próprio, de matuto. Sempre que saiam a campo o velho notava que havia muitas disputas entre eles, tanto na política, quanto na religião, nos times de futebol etc.; e guardava bem, as feições, dos que pendiam para um extremo ou outro. Passados alguns dias, alguns deles, em um fim de semana de folga das pesquisas, foram até o velho pedir para irem juntos pescar. O velho concordou em levar quatro deles para pescar em sua canoa, mas antes lhes pediu para arrumarem as tralhas e as iscas, e ficou observando seus comportamentos... Enquanto arrumavam, as discussões, entre os alunos, eram constantes: “Eu é quem consigo as melhores minhocas, pois entendo tudo de solo”, dizia um; “Sou eu quem vai preparar os anzóis e linhas, porque sou especialista em pescaria” dizia outro; e assim por diante. E o velho, tudo observando disse a eles: “Cada um de vocês prepare uma vara de bambu, quero que duas tenham um metro e meio e duas com três metros”. “E para que serviriam essas varas?” perguntaram. “É para usarmos como ‘varejão’, onde os bancos de areia não permitem tocar a canoa com os remos”, respondeu o Véi Joãozinho.
Chegaram, finalmente, à canoa, quando o velho propôs: “Vejo que cada um de vocês tem uma preferência diferente dos demais, então, a partir disso, cada um escolherá o lugar que vai ocupar nessa canoa: temos a popa, a proa o lado esquerdo e o lado direito”. Logo um foi dizendo: “Eu me sentarei na borda direita, pois que detesto tudo que seja de ‘esquerda’”! “Pois eu me sentarei na borda esquerda, pois odeio tudo que vem da ‘direita’”! Disse outro. “Eu, como amo tudo que é de ponta, de inovação, só me cabe sentar no bico da canoa”, disse o terceiro. “E eu, como bom ‘conservador’, só me resta sentar à popa”! O velho sentou no meio da canoa e remou até ao final do remanso, onde parou e disse: “Daqui em diante a correnteza é forte e, por isso, a canoa só pode levar três pessoas, ou seja, eu e mais dois de vocês, portanto vocês terão que disputar a sua vaga, os da esquerda e direita peguem a vara menor, e os da ponta e de trás peguem as maiores, e tentem derrubar o seu adversário, os que sobrarem continuou comigo na canoa e vamos até onde tem bons peixes”. Dito isso o velho se deitou no estrado e começaram as disputas; mas, assim que o da direita conseguiu derrubar o da esquerda na água a canoa inclinou-se, caindo ele na água também; simultaneamente o da popa derrubou o da proa, mas assim que este caiu a canoa empinou, caindo também ele naquelas águas frias de fim de outono. O velho sentou-se onde estava, no meio da canoa, e remou tranquilamente, até ao ponto da pescaria, enquanto os jovens, envergonhados, nadavam em busca da margem... 


O “Cabo-de-guerra”

Em outro dia, por ocasião de uma “final” de campeonato de futebol, o velho viu que as discussões estavam acirradas uns por um time, outros pelo seu adversário; apenas uns poucos jovens continuavam alheios, absortos em seus materiais de pesquisa.
Havia, no sítio, um velho e alto muro feito com pedras e esteios de cerne, que servia de sustentação para o moinho, que não mais funciona. O velho pegou um pequeno balaio e encheu com as melhores e mais saborosas frutas de seu pomar. Colocando-o na parte mais alta do muro, fez pender duas cordas, cada uma para um lado do muro, mas não sem antes amarrá-las, secretamente, ao esteio; então chamou a turma toda e disse: “Aquele balaio está cheio das” melhores frutas do meu pomar, mas para pegá-las será necessário que vocês escolham os melhores e mais fortes de cada time; os que torcem por time ‘tal’ vão para aquele lado, os que torcem pelo outro vão para o outro lado, e cada time vai tentar levar o balaio para o seu lado; o time que conseguir fica com todas as frutas. Foi uma euforia geral, tanto de um lado como do outro, e sem muito pensar atarracaram nas cordas e começaram a fazer força, cada lado só ajuntando mais pessoas, supondo que do outro lado os outros estavam puxando a mesma corda, pois não dava pra ninguém, de nenhum lado, ver seu adversário; as cordas, trançadas em couro cru, eram bastante resistentes, dessas que se laça touro bravio e seguro;...

 Em pouco tempo as mãos já começavam a calejar e a doer, e se revezavam, mas com o passar do tempo foram desistindo, exaustos, e assentando no grama. Então o velho chamou os que estavam neutros e disse: “Vão lá e peguem o balaio para vocês”; foi quando, boquiabertos, os dois lados viram os alunos neutros se apoiarem, uns nos outros, e subirem no muro, passando o balaio de mão em mão até chegar ao chão, onde se fartaram daquelas deliciosas frutas...

O Caminho do Meio

     Em outra ocasião o Véi Joãozinho, passando pelo acampamento viu outra discussão acirrada, desta vez sobre religião. Notou que alguns alunos se posicionavam como religiosos radicais, daqueles que “andam com Deus a tiracolo” e que outro grupo negava, veementemente a existência de Deus, ou seja, se diziam ateus convictos. Coincidentemente, no outro dia os professores pediram um trabalho sobre orquídeas e, para isso, foram até o velho para que ele mostrasse onde se poderiam encontrar as espécies necessárias à pesquisa.
    O velho, então, levou os alunos até um ponto em que a estrada se bifurcava, formando um Y, onde ele disse: “É bom que cada turma se separe conforme suas crenças ou descrenças, para que não haja discussões sobre religião, o que atrapalharia o desenvolvimento do trabalho, então, cada grupo desses escolherá uma das estradas que se seguem daqui, enquanto os que não se manifestam ficarão aqui”. Os que se proclamavam “ateus” escolheram a estrada da esquerda, uma estrada larga e sem muita ondulação; os radicais nas religiões escolheram a estrada da direita, também larga e ausente de obstáculos. Logo que eles entraram por essas estradas o velho mostrou ao restante dos alunos uma trilha estreita, quase oculta pelas gramíneas, que saía da bissetriz da bifurcação.
  Os alunos que escolheram a estrada à esquerda seguiram tranquilos até determinado ponto, mas depois de uma hora de caminhada a estrada foi se estreitando entre rochas, descendo por uma escarpa íngreme até dar em um desfiladeiro intransponível, procuraram em volta, mas só encontraram umas duas ou três orquídeas, dessas bem comuns. Os da estrada à direita também andaram confortavelmente por mais de duas horas, mas a estrada terminava em um rio de correntezas fortes, impossível de atravessar; procuraram em torno e, também só acharam algumas orquídeas comuns. Já os alunos que se enveredaram pelo caminho do meio, logo adiante, por uma meia hora de caminhada, chegaram a um platô, onde havia bosques e campinas cheios de orquídeas de todas as espécies: terrestres, epífitas, rupícolastrepadeirassaprófitos; e em pouco tempo já haviam catalogado mais de quarenta espécies, com suas subespécies correspondentes...

   Chegou à tarde, onde se ajuntaram os alunos, foi quando o velho disse: “Toda a radicalidade é prejudicial à Evolução, portanto, sigam sempre pelo Caminho do Meio, conforme nos ensinou Sidarta, e sempre terão êxito em seus empreendimentos!”.

Como o Véi Joãozinho sabia sobre Sidarta? Talvez escolhendo sempre o...

VIOLEIRO MINEIRO CAPIAU



ECLÉTICOS ACTOS VII


Nunca despreze o saber alheio
Ou o modo de qualquer coisa viva
Pois, qualquer ação te implica ao meio
Se há falha, estamos todos à deriva

Às tuas críticas, cuida de pôr freio
Pois são grilhões que torna a alma cativa
Procure a balança do Caminho-do-meio
Elogio exagerado também não incentiva

Mantenha a consciência sempre na ativa
Com o discernimento sempre em permeio
Dos confrontos inúteis, esteja na esquiva

Lembra-te que do bolo és parte do recheio
Um grão de areia na construção Altiva
Mas pode vir a ser um importante Esteio...

Yogaliastro por: Zé Camargo


Pequenos Contos Universais
O Deva e o Buda
O Buda estava um dia no jardim de Anathapindika, na cidade de Jetavana, quando lhe apareceu um Deva (espírito da natureza) em figura de brâmane e vestido de hábitos brancos como a neve, e entre ambos se estabeleceu o seguinte diálogo:

O Deva:
– Qual é a espada mais cortante?

Ao que Buda respondeu:
– A palavra raivosa é a espada mais cortante.

– Qual é o maior veneno?
– A inveja é o mais mortal veneno.

– Qual é o fogo mais ardente?
– A luxúria.

– Qual é a noite mais escura?
– A ignorância.

– Quem obtém a maior recompensa?
– Quem dá sem desejo de receber é quem mais ganha.

– Quem sofre a maior perda?
– Quem recebe de outro sem devolver nada é o que mais perde.

– Qual é a armadura mais impenetrável?
– A paciência.

– Qual é a melhor arma?
– A sabedoria.

– Qual é o ladrão mais perigoso?
– Um mau pensamento é o ladrão mais perigoso.

– Qual o tesouro mais precioso?
– A virtude.

– Quem recusa o melhor que lhe é oferecido neste mundo?
– Recusa o melhor que se lhe oferece quem aspira à imortalidade.

– O que atrai?
– O bem atrai.

– O que repugna?
– O mal repugna.

– Qual é a dor mais terrível?
– A má conduta.

– Qual é a maior felicidade?
– A libertação.

– O que ocasiona a ruína no mundo?
– A ignorância.

– O que destrói a amizade?
– A inveja e o egoísmo.

– Qual é a febre mais aguda?
– O ódio.

O Deva então faz sua última pergunta:
– O que é que o fogo não queima, nem a ferrugem consome, nem o vento abate e é capaz de reconstruir o mundo inteiro?

Buda respondeu:
– O benefício das boas ações.
Satisfeito com as respostas, o Deva, com as mãos juntas, se inclinou respeitosamente ante Buda e desapareceu.









15 comentários:

  1. Um belíssima página de Almanaque de domingo, com grandes reflexões. O escritor e poeta Violeiro Mineiro Capiau passa excelentes mensagens ao longo de toda página; um lindíssimo Conto recheado da Luz do Bem, mensagens edificantes de Amor e Verdade. Sábio conhecimento da temática abordada. O soneto foi tecido com maestria, um grande mestre conhecedor do Caminho da Evolução. As Imagens ilustrativas estão dando um show à parte e nos Pequenos Contos Universais, mais sabedoria e boas mensagens.
    Parabéns aos poetas que hoje desfilam por aqui. Excelente arte final do querido poeta Jorge Leite.
    Aplausos pelo show de sabedoria!
    Bom domingo a todos! Bravíssimo Violeiro Mineiro Capiau❤👏👏👏👏👏

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    1. Sem palavras para agradecer, mais uma vez, a sua generosidade e carinho para com meus, simples e humildes, contos de capiau da roça... Fica um abração, e o desejo de muita felicidade e muita Poesia e Contos em sua vida de maestrina das letras!

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    2. Obrigada pelo carinho e espero que você tenha gostado da surpresa: escolhi seu MARAVILOSO soneto ECLÉTICOS ACTOS VII retirado do seu livro NOVOS E VELHOS DEVANEIOS DE UM LOUCO VELHO RECICLANDO O NOVO. Show! Fique em Deus. Boa noite!

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  2. Não sei se gostei mais do conto "Escolhas" ou do poema "Ecléticos Actos VII", mas o que eu gostei mesmo foi de publicar e ilustrar os brilhantes trabalhos do amigo Violeiro Mineiro Capiau. Parabéns Capiau. Boa leitura e bom domingo para todos. Abraços.

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    1. Mestre Jorge, estou deveras emocionado e agradecido pelo apreço e capricho com meus escritinhos de capiau da roça... Como disse Aldir Blanc e Silvio Silva Júnior* "O apreço não tem Preço", mas fica um "obrigado, que é o modo civilizado de pagar sem pagar"**. Lindo o teu conto do diálogo de Sakia-Muni com o deva ("coincidentemente" hoje reencontrei o livro "Sidarta" do filósofo alemão Hermam Hesse, e reli a parte de onde ele encontra novamente com o rio até ao final do livro); ficou dez mil tuas colocações e ilustrações!
      *Musica 'Amigo é pra Essas Coisas'", grande sucesso com o MPB4
      **Não me lembrei o autor, mas a frase faz parte de um poema muito bonito em que um relógio fala de seu trabalho sem paga...

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  3. Boa dia amigo do Bem, Violeiro Mineiro Capiau! É com imensa satisfação que venho interagir e comentar a sua belíssima página de Almanaque de hoje. Faz gosto deleitar-se com cada linha do seu lindo conto, grandes reflexões em uma mensagem maravilhosa. Estou muito emocionado com o seu poema, sabedoria e verdade não faltaram. Lindo momento! E para completar ilustrações lindíssimas e harmoniosas. Também gostei da mensagem do pequeno Conto O DEVA E O BUDA somente aprendizado... grandes lições. Um domingo com novos conhecimentos! Que amigo apareça sempre por aqui e compartilhe suas artes poética e literário. Parabéns aos poetas e ao blog aplausos pelo sucesso, que já é uma constante. Boa tarde para os amigos e leitores! Até logo mais!
    Saudades...

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  4. Passando aqui, no Blog Maçayó, para prestigiar o amigo e grande poeta Violeiro Mineiro Capiau, que compartilha para nós muita sabedoria em seu lindo Conto e seu maravilhoso soneto. Versos de mestre que mostra ensinamentos e grande sabedoria . Concordo, com meu querido esposo Maciel. O poeta e escritor Violeiro passa muita Paz, para mim ele é um poeta do Bem. Como Bete fale no soneto dela, "tudo para galgar novos degraus na Evolução..." belíssimo momento. deslumbrantes ilustrações e também gostei bastante da mensagem dos pequenos Contos Universais. Parabéns ao amigo poeta Mineiro e parabéns ao poeta Jorge pela arte final.
    Abraços para todos e saudades de vocês... Boa tarde!

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  5. Uau pessoal, que página linda e educativa! Muita sabedoria nas mensagens do grande amigo poeta Violeiro. Eu particularmente gosto demais das páginas do Capiau, ele é um grabde sábio, nada se perde tudo se transforma por aqui. É sempre gratificante participar do Blog Maçayó. Lindo soneto, grande mensagem e o Conto é o que a gente precisa ler em um domingo. Que lindas ilustrações e estão completando a leveza da página. Também gostei amigos da mensagem do pequeno conto. Tudo perfeito, e na medida certa, sem exagero. Parabéns aos poetas e fico no aguardo para novas e belas atrações. Boa tarde para todos! Aproveitem os ensinamentos... Abraços amigos!
    Bete, te aguardamos na terça-feira para nosso café com poesia. Beijos querida amiga.

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    1. Corrigindo: ... grande ...

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    2. Paulo amigo, irei com certeza! Fale para Geovanna que eu levarei as poesias e ela fará as tapiocas.
      Beijos

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  6. Belíssima página de Almanaque, um domingo de grandes aprendizagens, aqui no blog Maçayó. O Violeiro sempre emociona a gente e compartilha grandes ensinamentos em seus poemas, canções e contos. Gosto do jeito dele se dirigir ao leitor, pronto para ensinar. O conto é belísimo tanto quanto o poema. Amei as imagens ilustrativas e todo compartilhando por aqui. Bela mensagem no pequeno conto. Sábias palavras marcam presença. Parabéns para o amigo Capiau e parabéns pela arte final do poeta Jorge Leite. Show de mensagens! Aplausos para o blog. Boa tarde e abraços.
    Bete querida, pode trazer suas poesias que farei o café o as tapiocas. Beijos amiga.

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    1. Corrigindo: ... belíssimo... tudo compartilhado...

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  7. Onde encontrar palavras para agradecer tão gentis e generosos comentários? Procurei no dicionário e não achei sequer uma que estivesse à altura... Então, só me resta desejar muita saúde, paz, sabedoria, amor, alegria, felicidades à todos: Elizabete Leite, Jorge Leite, Paulo e Geovanna, Naciel, Flor De Lis e a todos os visitantes... Abração a todos, e que permaneçam em Deus!

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