domingo, 8 de setembro de 2019

Almanack de Domingo - Amor, Vinho e Gibi

Ano II - Edição Nº 359 - Tema Adulto
Tema das imagens - Vinho




AMOR, VINHO E INVERNO

          Era uma manhã de inverno fria, silenciosa e penetrante, em uma cidade interiorana da grande São Paulo, o vento soprava com intensidade e acariciava as árvores fazendo-as bailar no ar, raios riscavam o céu de um canto a outro, iluminando toda a linha do horizonte e, o clima congelante não permitia que a jovem Helena deixasse os seus cobertores… A garota já estava bastante atrasada, para o seu primeiro dia no novo emprego, mas mesmo contra a sua vontade, ela se levantou e foi até a janela para apreciar o cenário fascinante da estação de Inverno. O dia estava fleumático e muito chuvoso, os pingos de chuva que caiam do céu formavam gotículas coloridas; nesse clima natural e contagiante, Helena deixou-se envolver, ela foi afastando devagar as cortinas transparentes, e estirou seu braço direito, como se quisesse segurar a chuva, queria tocá-la, sentir sua fragrância, pois aquele aroma de terra molhada inebriava os seus sentidos. A garota virou-se bem devagar e foi se trocar, não queria perder sua condução...
          Helena era uma jovem saudável, de classe média, muito emotiva; às vezes do nada, chorava rios de lágrimas, e já em outras vezes sorria sem motivo algum. Heleninha, como era conhecida por todos, na flor da juventude, em seus dezenove anos de idade, tinha cabelos longos, olhos amendoados, face rosada e corpo esbelto; sempre foi considerada a mais bela do seu bairro. Seus pais tinham viajado em uma excursão religiosa e a bela jovem ficara sozinha em seu aconchegante lar...
         A deslumbrante garota se vestiu com uma roupa quente, casaco de frio, e saiu correndo em disparada até o portão, para não perder o ônibus que passava, por ali, naquele exato momento...
          Ao chegar a seu trabalho, a jovem percebeu um clima pesado, como se um rio, com águas turvas, houvesse preenchido todos os cômodos do escritório. Salas vazias, pessoas de semblantes tristes circulavam caladas pelos corredores. Ela imediatamente entrou na primeira sala que avistou. Perguntando ao atendente:
          - Bom dia, senhor! Sou a nova digitadora. O que aconteceu por aqui?
          Um senhor de cabelos grisalhos, como capuchos de algodão, respondeu-lhe, suavemente:
           - Bom dia, senhorita! O diretor da empresa faleceu, subitamente, essa manhã. Hoje não haverá expediente, mas a senhorita pode falar com o diretor adjunto, na sala ao lado.
         Helena quedou-se, paralisada, e deixou o recinto logo em seguida. A garota entrou na sala, e não acreditou no que viu. Sentado de cabeça baixa estava alguém que ela conhecia muito bem, um antigo amor que veio do passado, ela parou em frente dele, e quebrou o silêncio:
          - Gustavo é você? Há tanto tempo não te via! Você estava em Londres?
          Um jovem de cabelos negros, olhos azuis, barba expressa e vestindo-se com um terno elegante e preto; olhou-a dos pés a cabeça e falou:
         - Heleninha, que prazer revê-la! Voltei ao Brasil há pouco tempo. Não soube mais notícias suas, desde aquele acampamento de inverno.
         O rapaz se levantou, a envolveu em um grande abraço, e a beijou suavemente nos lábios. A garota retribuiu o selinho e eles se sentaram lado a lado. Os dois ficaram conversando por horas, que nem perceberam o tempo passar. Lá fora a chuva castigava a pequena cidade, o tempo pardacento, e um resto de neblina escurecia ainda mais o cenário, deixando o ambiente congelante. O silêncio foi quebrado pela voz grave do ascensorista do elevador que morava naquele edifício:
          - Senhor Gustavo, a rua está completamente alagada, será impossível vocês deixarem o prédio! Eu já vou me recolher, pois todos já foram embora.
         O rapaz franziu a testa, em sinal de preocupação, e falou para o ascensorista:
         - Obrigado José, você pode se recolher, que daremos um jeito!
          Gustavo levantou-se devagar, foi até o frigobar, pegou uma garrafa de vinho branco e duas taças. Aproximou-se de Helena, olhou-a firmemente, afastou os seus cabelos de leve, deixando o pescoço exposto, segurou-a em seus braços, molhou os seus lábios com vinho, e beijou-a ardentemente. A garota estremeceu e entregou-se por inteira, de corpo, alma e mente. O corpo de Helena estava mole e totalmente entregue a Gustavo; os dois se amaram perdidamente. Os gemidos invadiam os corredores vazios daquele ninho de amor, enquanto o vinho molhava a saliva do casal que não parava de se beijar. A noite fria foi aquecida pelas chamas ardentes do vulcão, do casal, que entrara em erupção, e assim tudo estava consumado. Gustavo e Helena, já cansados, deitaram-se no tapete vermelho da sala e adormeceram em companhia do vinho, naquela ardente noite de inverno...
             Já era quase manhã quando Gustavo acordou Helena com um beijo quente em seus lábios. A garota despertou, e percebeu que não havia sido um sonho, mas sim realidade... Os dois foram ao velório do diretor da empresa e não se desgrudaram nunca mais.
           Os tempos passaram... Helena foi morar em Londres com Gustavo, os dois se completavam perfeitamente; eles foram muito felizes, mas nunca se esqueceram daquela noite de amor, vinho e inverno.
          Elisabete Leite – 03\09\2019

Meu olhar em Teu Olhar

Meu olhar se cruzou com o teu
Ah, minha noite se transformou!
Um sonho intenso, logo nasceu
Assim, um luar surgiu e brilhou...

O teu sorriso tenho na memória
Momento que me trouxe alegria
Você faz parte da minha história
És versos, rimas e minha poesia...

Foi muito bom conversar contigo
Sentir o teu olhar dentro do meu
Tu és muito mais que um amigo
Quero fazer parte do mundo teu...

Nasceu em um passe de mágica
Um sentimento puro, avassalador
Minha face ficou totalmente cálida
De dentro de mim surgiu um amor.

Elisabete Leite – 01\09\2019





Fui ler um gibi...
               
                A noite estava chuvosa e fria, uma fina e persistente garoa chorava sobre São Paulo. Em um bar, sentado sozinho em uma mesa sem encanto, ouvia Nelson Gonçalves:

“Noite alta, céu risonho
A quietude é quase um sonho
O luar cai sobre a mata
Qual uma chuva de prata
De raríssimo esplendor
Só tu dormes, não escutas
O teu cantor
Revelando à lua airosa
A história dolorosa desse amor”

            As lembranças céleres envolviam meu pensamento, tentava esquecer nas doses seguidas de cachaça, momentos difíceis e sofridos que tinha passado horas antes. Ainda não acreditava que a pessoa que eu amava tinha me deixado por outro. Sei que as pessoas não nos pertencem, mas quando amamos alguém acreditamos que jamais haverá separação, dor, sofrimento. A vida nos mostra que tudo é possível.
            Carmem, minha musa, já vinha se comportando diferente há algumas semanas, já não apreciava nossas noites regadas por vinho, de preferência tinto, que é a cor da paixão. Já não existia tanta paixão em nossos encontros. Por vezes a encontrei distante, envolvida em um silêncio comprometedor. Naquela noite não tomamos um Cabernet Sauvignon, ela apenas tomou uma água mineral com gás, e eu algumas doses de pinga. Coisa que não fazíamos a muito tempo.
            Após um silêncio interminável, ela de chofre levantou-se e disse:
            -- Vou para casa, já não amo mais você!
            -- Amo outra pessoa, é um amigo nosso, você gosta dele.
            Fiquei paralisado, só percebi o barulho da porta se fechando após um instante interminável, se há que exista. Não queria acreditar, o mundo desabava sobre minhas costas que se encurvaram com o peso e saí sem destino.
            Nesses momentos sair sem destino somente tem um destino; o bar mais próximo, mais sujo, mais baixo, tão baixo e profundo quanto o poço em que mergulhamos. Na vitrola Nelson Gonçalves continuava cantado a música de Cândido  das Neves:  

“Lua...
Manda a tua luz prateada
Despertar a minha amada
Quero matar meus desejos
Sufocá-la com os meus beijos
Canto
E a mulher que eu amo tanto
Não me escuta, está dormindo
Canto e por fim
Nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou eu
E entre a neblina se escondeu”

            Encoberta por nuvens cinzentas a lua não fazia o menor esforço para iluminar a escuridão que me encontrava. As doses seguidas de pinga barata entorpeciam meus pensamentos, mas minha alma não se acalmava. Entre o vai e vem de lembranças percebi quanto tão é fugaz nossa luz, e a escuridão sempre à espreita, apenas aguardando esses momentos para nos envolver.
            O dia começava a clarear. Tinham-me levado qualquer bem que estivesse em meus bolsos, os bens do coração e da alma já tinham me levado antes. Encontrava-me completamente nu. Levantei e comecei a andar vagarosamente. Sabia que havia necessidade de recomeçar, reconstruir meu peito e minha alma. Buscar a luz em algum lugar, procurar um amigo.

“Lá no alto a lua esquiva
Está no céu tão pensativa
As estrelas tão serenas
Qual dilúvio de falenas
Andam tontas ao luar
Todo o astral ficou silente
Para escutar
O teu nome entre as endechas
A dolorosas queixas
Ao luar”

            A vitrola já não tocava, a garoa fora expulsa por um sol firme e quente. Eu precisava me vestir, já tinha me desnudado do que não mais servia, as costas continuavam encurvadas, voltar ao que chamamos de normalidade poderia demorar um pouco. Na banca da esquina compro um gibi e sento-me no banco de uma praça. No mesmo banco, uma Senhora dava comida aos pombos. Um desses pombos passou em voo baixo sobre minha cabeça e seguiu sem rumo como a vida.

Jorge Leite, Madalena, 07 de setembro de 2019



Noite cheia de estrelas

Cândido das Neves (Índio)
           Contrastando com o humor irreverente de Noel Rosa e Lamartine Babo, 1932 teve também o romantismo derramado de Cândido das Neves em “Noite cheia de estrelas”. Filho do palhaço, cantor e compositor Eduardo das Neves, Cândido – conhecido como “Índio”, apesar de ser negro – foi um seguidor de Catulo da Paixão Cearense, notabilizando-se como autor de canções seresteiras.
Exemplo disso é “Noite cheia de estrelas”, um tango-canção cheio de imagens rebuscadas e palavras escolhidas no dicionário: “as estrelas tão serenas / qual dilúvio de falenas / andam tontas ao luar / todo astral ficou silente / para escutar / o teu nome entre endechas / as dolorosas queixas / ao luar…”. Gravada por Vicente Celestino, a canção é um clássico dos repertórios do cantor e do autor 





Pixabay - Vinhos

Noite Cheia de Estrelas




















10 comentários:

  1. Um magnífico Almanaque de domingo, o Blog Maçayó está em festa com esse grande encontro dos irmãos Leite; muita emoção regada a um bom vinho.
    Estou lisonjeada, agradecida, realizada e muito feliz por compartilhar mais um Conto, aqui, em nosso Cantinho do Saber. A página como sempre está espetacular... O texto do querido Jorge está maravilhoso e as ilustrações completam perfertamente o tema do conto. Ficou apaixonante esse momento de pura arte.
    Um show de domingo...
    Parabéns para nós e aplausos para o nosso Blog.
    Apaixonante tudo por aqui! Um feliz domingo a todos e um beijo no coração de cada um.

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  2. Que aquecida noite de inverno. Um Conto maravilhoso da nossa querida amiga poetisa Elisabete Leite que venho com tudo e compartilhou um enredo de despedida do inverno, uma história envolvente com um gostinho de quero mais. Lindo e lindo poema e imagens belíssimas que completam perfeitamente a temática da página, vinho, amor e inverno. Excelente e criativa crônica do poeta amigo Jorge Leite, como tudo compartilhado no Almanaque do nosso blog Maçayó. Show! Atrasada para o início do verão, mas cheguei a tempo de provar do vinho.
    Boa noite para todos e parabéns aos irmãos LEITE! Abraços

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  3. Uau pessoal, que magnífica página de Almanaque no nosso Blog Maçayó. Um Conto belíssimo de fechamento da estação do inverno onde o amor está no ar. Lindo e aquecido poema da nossa querida amiga poetisa Elisabete Leite.
    Imagens ilustrativas deslumbrantes, que mostra a combinação do tema vinho e amor no aquecido do frio. Uma página madura e quente. Lindissima crônica do amigo poeta Jorge Leite gostei demais do tema gibi. Tudo é fantástico!
    Parabéns para os irmãos LEITE.
    Bete chegarmos agora do aeroporto Maciel e Flor de Lis já estão em Recife. Daqui a pouco ele dará sinal de vida. Aplausos mil.
    Abraços e boa noite!

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    1. Que bacana, que nossos amigos chegaram... Sejam bem-vindos queridos amigos Flor de Lis e Maciel! Hoje foi aniversário da minha sobrinha. Vamos marcar uma boa conversa e muito vinho 🍷 outro dia. Saudades



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  4. Contos maravilhosos dos irmãos Leite, me fez voltar aos tempos de seresta. Toquei muito essa música de Cândido das Neves. Valeu recordar. Parabéns aos poetas.

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  5. Magnífica página de Almabaque! Muito vinho, amor, gibi e tudo aquecido, pelo amor nesse frio de final do nosso inverno e início de verão. Já estamos em solo Pernambucano/Recife de braços abertos para nos acolher. Desculpem pela demora, mas chegamos faz pouco tempo. O voo atrasou e Paulo e Geovanna ficaram o dia todo no aeroporto esperando pela gente.
    Um show de ilustrações, um espetáculo de conto e poema da amiga Elisabete Leite, uma belíssima crônica do poeta amigo Jorge Leite. Os irmão arrasaram, sucesso total. Tudo perfeito!
    Bete, vamos marcar um vinho? Daqui a pouco Lis entra para falar com vocês.
    Abracos... VOLTAMOS RECIFE!

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    1. Que bom amigo Maciel, que vocês chegaram. Obrigada pelo carinho de sempre. Marcaremos uma rodada de poesia regada a vinho.
      BEM-VINDOS AMIGOS!

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  6. Venho aqui prestigiar os meus amigos poetas os querido irmãos Jorge Leite e Elisabete Leite. O show de Almanaque hoje é regado a vinho e muita emoção... Um belíssimo Conto da minha amiga querida Elisabete Leite que esquetou o frio do inverno com esse romance incrível e Jorge Leite trouxe uma lindíssima crônica, com trechos de músicas maravilhosas. Uma página emocionante e recheada de bons conteúdos. Sábios irmãos que brilham nesse blog.
    Já estamos em Recife, viemos a passeio, aproveitar o ínicio do verão.
    Vamos matar nossas saudades com vinho e poesia.
    Maravilhosas ilustrações, o poeta Jorge está matando a gente de desejo de um bom vinho.
    Abraços e até logo!

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  7. Que felicidade amigos Naciel e Lis, o casal mais quente que conheço ao vivo em Recife. Eu e Augusto queremos que vocês venham nos visitar. Sejam bem-vindos!
    Que espetáculo de página de Almanaque de domingo. Com um maravilhoso Conto da nossa amiga Elisabete Leite, gosto demais da temática AMOR e regado a vinho ainda é melhor. Anei a linda Crônica do Jorge e o quente poema da Bete. As ilustraçőes, como sempre, estão impecáveis. Show e show!
    Parabéns aos poetas e abraços meu e de Augusto. Boa noite!

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  8. Boa noite pessoal, meus amigos e amigas! Primeiramente, gostaria de pedir desculpa pela minha ausência aqui no Blog Maçayó. Estive viajando a trabalho e lá a conexão era muito difícil, quero deixar claro que lia todas as páginas, mas não conseguia comentá-las. Muito feliz pela presença dos amigos queridos Lis e Maciel aqui em Recife. Vamos fazer um encontro de poesias, com vinho é claro. Bete me disse que o poeta Jorge faz coleção de vinho.
    Uma deslumbrante página de domingo, com um maravilhoso conto em homenagem ao amor na estação do inverno, tudo regado ao vinho. Gostei bastante do seu poema Bete e também achei belíssima a crônica do poeta Jorge. Um momento de pura arte. Belas e expressivas ilustrações. Que orgulhos em irmãos Leite.
    Parabéns para os dois... Saudades de vocês. Beijos...

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