domingo, 2 de outubro de 2022

Nostalgia

 
Blog  Maçayó

Edição   nº 509

 Tema das Imagens: Nostalgia
 

 LEITURA   DE   DOMINGO
 
 
 UM DIA DE CÃO NA PRIMAVERA!

          Era início da Primavera, a estação mais charmosa do ano; olores, flores, amores, como também dores permeiam pela aquarela de tons e cores que era a vida da sonhadora Letícia Avelar. Ela que vivia entre sonhos reais e quimeras.
          Letícia Avelar era uma jovem sensível que procurava viver da melhor maneira possível. Não se importava com as asperezas do dia a dia, ela vivia cada segundo como se fosse o único, com muita intensidade, sem pensar no antes e nem no depois. Mas a vida pegou-lhe uma dolorosa peça, e a garota, urgentemente, precisaria encontrar um raio de luz para iluminar a escuridão que já passava pela sua vida.
          Letícia tinha cabelos negros e encaracolados, olhos vibrantes e face bem rosada, era considerada uma jovem bonita pelos amigos e com um futuro promissor, era também muito disputada pelos admiradores da escola. Na verdade, ela nem se preocupava com os seus admiradores, o que ela queria mesmo era viver.
           Certo dia, acordou com um mau pressentimento, como se algo fosse acontecer com ela. Levantou-se depressa e foi até o espelho; aquilo que seria um encontro com ela mesma. Colocou o óculos, na intenção de se enxergar melhor, e assim travou um diálogo consigo: "- não vejo o pairar dos colibris pelo jardim da minh'alma! Nem escuto o gorjear dos rouxinóis por lá. Algo vai me acontecer! Só não sei como e nem por quê?!" Voltou ao presente, colocou uma roupa suave e foi tomar seu desjejum matinal. Cruzou na cozinha com sua mãe que aproveitou para passar-lhe um enxame de novidades corriqueiras:
          - Letícia, Bom Dia! Heitor, seu primo, passou no vestibular de medicina e vai estudar em outro estado! Hoje, haverá uma festa de despedida para ele. Você irá?
          A garota ouviu, sem dá muita importância as novidades, e respondeu-lhe:
          - Bom Dia, mãe! Tenho uma prova importante no primeiro horário, resolverei depois se irei ou não! Heitor merece minha presença pois gosto muito dele. É um rapaz batalhador. Voltou-se e saiu em seguida!
          A jovem Letícia percebendo que já estava atrasada, resolveu ir de metrô, para chegar antes do horário da prova, e repassar os conteúdos... Chegando à estação, ela permaneceu inerte na plataforma de embarque, esperando o metrô estacionar; foi quando ouviu alguém chamando por ela, dentro do metrô que acabara de parar. Viu seu primo, Heitor, entre um turbilhão de pessoas que procuravam um lugar para sentar. Entrou correndo para mais rápido alcançar seu primo, mas ouviu um barulho ensurdecedor, percebeu que havia sido um tiro, foi quando reconheceu seu primo agonizando no chão. Procurou se aproximar do mesmo, mas alguém pressionou sua cabeça com o cano de um revólver. Foi quando notou que era refém da terrível situação formada. Ouviu em seguida, uma voz grave que dizia:
            - É um assalto! Fique quieta, que você é minha refém!
            Letícia não disse nada! Não sabia se chorava ou sorria, só conseguia pensar no primo caído no chão e nada mais. De repente, o metrô parou e ela viu-se empurrada para fora do vagão. O rapaz continuava machucando tanto Letícia, que sofria incomodada pela forte pressão do objeto na sua cabeça. Logo, foi jogada para dentro de um toalete feminino, sem nenhum direito de defesa. Foi quando resolveu se comunicar com tal do assaltante, e disse-lhe:
            - Moço, minha família não tem dinheiro! Você atirou em meu primo! O que quer de mim?
           O homem de rosto fechado, respondeu-lhe:
           - Moça, permaneça em silêncio, para o seu bem! Não era para acontecer assim, mas aconteceu! Agora você irá cooperar e fazer tudo que eu mandar.
           A garota sabia que não podia vacilar, se quisesse sobreviver, teria que ser esperta. Ela ficou imóvel, se encostou na parede e aguardou os acontecimentos. Ouviu quando alguém bateu na porta do toalete, mas permaneceu em total silêncio. Começou a suar frio, suas pernas não paravam de tremer, coração acelerando diante daquele clímax angustiante, que era um verdadeiro dia de cão, naquela Primavera que não floriu. Fora do toalete a polícia procurava se comunicar com o assaltante, dizendo que o local estava cercado, que o melhor seria ele se entregar, imediatamente. Mas o silêncio continuava fora e dentro das quatro paredes daquele banheiro. O silêncio foi quebrado pela voz firme do assaltante, que disse-lhe:
            - Moça, você vai sair primeiro e logo depois eu sairei, você servirá de escudo para mim, procure entreter os polícias, enquanto eu fujo.
            Letícia nada falou, tomou fôlego e abriu a porta do banheiro, ela sabia que aquele pobre rapaz era inexperiente, mas o que ela queria mesmo era sobreviver, para saber notícias do primo. Bem devagar foi saindo, aproximadamente mais de dez policiais seguraram ela, o assaltante passou por trás de Letícia, pulou o muro de proteção do local de desembarque e conseguiu fugir. Os policiais, percebendo que Letícia era a vítima, saíram correndo, enquanto ela ficou soluçando baixinho. Depois da situação normalizada, a garota foi depor na delegacia e só assim, foi para casa. Somente em casa, ficou sabendo do real estado de saúde do primo. Heitor havia sido operado e estava se recuperando no hospital. Mas, a garota queria saber do assaltante. Foi descansar e ao amanhecer comprou o jornal, para se inteirar das notícias locais. Ela suspirou aliviada quando leu a principal manchete: "Pânico dentro do metrô, deixa um homem ferido, uma refém liberada e o assaltante fugiu sem destino."
           O tempo passou... Letícia nunca conseguia esquecer aquele dia de cão na primavera. Seu primo, Heitor, se recuperou e a vida continuou, mas ela nunca mais foi a mesma.

Elisabete Leite - 27/09/2022
 
 
 CANTINHO DA TIA BETA
 
UM DIA DE CÃO - O FILME
 
"Uma obra-prima do diretor Sidney Lumet, que levou para as telas a história real de um assalto famoso."

Um Dia de Cão é mais uma obra-prima do diretor Sidney Lumet, lançado há quase vinte anos da obra máxima do diretor, Doze Homens e uma Sentença, e apenas a dois de Serpico, também com Al Pacino. Visto sob um olhar descuidado, pode parecer simples demais, uma história de assalto a banco feijão com arroz, mas, se visto com a devida atenção que merece, vai se mostrar infinitamente mais complexo do que antes; tanto na construção psicológica cuidadosa de seus personagens quanto no polimento das imagens.
Baseado na história real ocorrida em 22 de Agosto de 1972, conheça Sonny (Al Pacino) e Sal (John Cazale), dois homens comuns que simplesmente entram em um banco e o assaltam, sem nunca ter a mínima noção do que estão fazendo exatamente. O que era para durar apenas alguns minutos estende-se por várias e várias complicadas horas, com direito a policiais fortemente armados, imprensa tornando tudo em um gigantesco evento e uma platéia de curiosos que reage a todos os acontecimentos.
Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original, escrito por Frank Pierson, baseado nos artigos de Kluge e Thomas Moore, o brilhante aqui não é uma situação estratosférica, gigantesca, digna de um grande blockbuster; o que vale realmente é a situação simples, anormal, lotada de pequenos detalhes que a enriquecem e a aprofundam. Perceba, por exemplo, as reações de Al Pacino a todos os imprevistos da trama, como o olhar surpreso quando a polícia aparece ou então o modo gentil com que ele trata os funcionários do banco. É tudo muito óbvio, mas, ao mesmo tempo, profundo. Há um fundamental segredo para o desenvolvimento da trama, mas que todos os veículos de comunicação simplesmente ignoram e o revelam, tirando o choque de quem está assistindo ao filme – algo que não farei, mas dou a dica que é relacionado à motivação do assalto e que realmente é inesperado.
Acompanhando unilateralmente a visão do personagem de Al Pacino, que está presente em todas as sequências do longa, temos praticamente um "monólogo" interpretativo brilhante do ator, que indiretamente discute valores da sociedade, preconceitos e mídia. Só que isso não é ruim, pois simplesmente não atrapalha o andamento e nem o entendimento da obra e ainda tem o mérito de nos deixar interessados naquilo tudo – de uma forma ou de outra, somos também uma daquelas pessoas, seja da parte de fora do banco ou em casa, assistindo à televisão, interessados no que acontecerá a seguir. Algumas cenas são clássicas: o povo aplaudindo um Al Pacino que não sabe bem o que faz, agindo intuitivamente, o entregador de pizza comemorando ter participado do “evento” que a mídia construiu, ou então as pessoas totalmente à vontade dentro do banco, onde fica claro que Sonny e Sal nunca quiseram fazer mal a ninguém; eles foram tão ingênuos que nem um nome fictício eles chegaram a usar. Uma das reféns chega a dar entrevista durante um dos discursos de Sonny!
Ao contrário de seu parceiro, Sal é um mistério total para o público. Interpretando mais uma vez um personagem complexo em sua carreira, John Cazale, que fez apenas oito filmes, quase todos obras-primas, antes de falecer por câncer, monta um personagem extremamente sombrio, que faz tudo por algum motivo que nunca vamos saber. Sua característica mais forte durante todo o filme é a certeza de que ele mesmo tem: “não sou homossexual”, apesar de todas as evidências apontarem para o inverso.
Não há uma música sequer para realçar as emoções pré-estabelecidas pelo longa: as sequências, por si só, já são tensas o suficiente para poder segurar a onda do longa. Recheado com um humor-negro de uma era pré-Tarantino, principalmente pelas atitudes ingênuas de Sonny (mas nunca idiota, ele está sempre ligado nos passos dos policiais), o filme tem ainda um final chocante e inesperado, cru e repentino - os policiais têm a sua teoria e a defendem até o desfecho.
A montagem é ágil e ajuda a manter o interesse em tudo o que está acontecendo. Mesmo com a escassez de informação do começo do filme (há personagens que aparecem e desaparecem do nada, mas, afinal, Sonny realmente não sabe o que aconteceu com eles durante o assalto), nunca perdemos o interesse do que está acontecendo. As calças coladas e cores extravagantes definem bem a época em que o filme foi realizado, mas, ao contrário de seus irmãos inovadores dos anos 70, não temos uma montagem experimental, e sim o mais linear possível, com as informações chegando aos poucos, mas sem toda a clareza que Hollywood costuma mastigar para o seu público. A compreensão vem da inteligência, e não do explícito.
Ao final, temos uma tragédia que a mídia transformou em evento e um evento que Sidney Lumet transformou em obra-prima. Merece uma atenção especial de sua parte, com um retorno garantido em forma de entretenimento de qualidade. Mas alugue ou veja na TV, porque o DVD simples que fica circulando pelas lojas (não conferi o duplo) é simplesmente ridículo, sem nenhum extra e em tela cheia - só que isso é papo para uma outra seção, em uma outra hora. Por enquanto, preocupe-se apenas a assistir a esse filme, o mais rápido possível.

Pesquisa: https://www.cineplayers.com/criticas/dia-de-cao-um
 
 NOVO CICLO

O Maçayó eternizou nossa amizade
Laços duradouros de sentimentos
Irmãos unidos a qualquer momento
Um legado vivo por toda eternidade...

Mais um ano de vida, novos eventos
Início de ciclo, outras oportunidades!
Te desejamos vida longa e felicidade
Com saúde, Paz, muito amor, alentos...

Vamos colocando nossas vivências
Sim, neste baú que é a nossa mente
E passando no crivo da consciência
Só aquelas que edificam, realmente...

Aqui estamos, felizes, comemorando
Mais uma primavera sua que se renova
Com certeza de seguirmos espalhando
Belas mensagens em Versos e Trovas...

Elisabete Leite e amigos
(Parabéns, Carlos Isaac e Feliz Aniversário! Muitas e muitas Primaveras para ti) 
Salve 03/10!
 
 
 ENCONTRO   DE   POETAS
 
 ENCONTROS E DESPEDIDAS
Joseraldo Silva Ramos


Transformado o encontro em partida
O até logo também em um adeus
E vi indo todos os sonhos meus
No abraço da despedida a saída.

Por entre os dedos senti escorregar
O que antes tinha em minhas mãos
Percebi o tudo que foi vivido em vão
E me vi sem norte para recomeçar.

Parado, em devaneios, na estação
Esperando o surgir de mais um trem
Para, assim, embarcar no seu vagão.

E de novo conquistar o seu coração
Tentando reconquistar o que convém
Nesse momento de plena emoção.
 
 ARQUIVO DO MEU PASSADO

Resolvi dar aquela olhada no celular
Nas gavetas, nos porta-retratos
Nas pastas, bolsas e escarcelas
Com fotografias, mensagens, poesias
Aquelas escritas dos anos passados
Que hoje, para mim, são mais ridículas
Que pessoas esdrúxulas e sem nexo
De quem agora, enfim, me despeço.
Parei, olhei, pensei, pensei bastante
Coloquei-as em minhas mãos
Fui amassando, uma por uma...
Rasguei todas, limpei o meu arquivo
Deixei o vazio, de um vazio sem fim...
Um passado que já não faz parte de mim!

Rita de Cassia Soares
Pirpirituba 26/09/22
 

 ONDE SENTIMOS SAUDADE

A saudade não mata, mas fere e maltrata
Ela muda de dia e na explosão do desejo
Se acolhe, se esconde, mas de madrugada
Desperta a lembrança dos abraços e beijos.

No cheiro da boca, naquele suor derramado
Nas vias de fato, tão fáceis de achar
No toque que mexe os seios crispados
Nas curvas dos corpos mantidos no olhar...

É assim que se sabe onde o amor é ingrato
Por outra emoção e por outros abraços
No melhor do momento nos deixa de lado
Por aquelas que doam seus beijos no asfalto.

Socorro Almeida
Recife, 27/09/2022
 
 A MENINA E A MULHER

Tudo ficou entre ela e a mulher que queria ser
Tudo a que se expôs ninguém viu, ninguém quis
Sob o domínio da paixão, todas nós somos fracas
Forte é aquela que sabe como se fazer feliz.

Só conheceu as armadilhas da doce ilusão
O acúmulo das amarguras e dos dissabores
Não se desviou dos encantos de uma paixão
De um quarto vazio, da solidão e suas dores.

No abraço que aquece não soube se acolher
O colo que amacia não a definiu onde ficar
Se abrigou sob a lua, pelas ruas e esquinas...

Agora as rugas que lhe ajudam a sobreviver
Da mulher que um dia ousou se aventurar
São lembranças dos sonhos de uma menina!

Socorro Almeida
Recife, 26/09/2022
 
  Nas ondas da imaginação

Imagine uma paz interior
O amor maior, sem preconceito
Acreditar que este mundo tem jeito
Sem violência, sem ódio e sem dor.

Imagine espantar todo o rancor
Romper barreira, corrente, despeito
Sem violar norma, nem preceito
Universo harmonioso de som e cor.

Em tempos desprovidos de comunhão
De respeito ao Criador e a criação
Sonhar se faz por demais necessário.

Dar asas ao nosso coração
Contemplar por um instante a perfeição
Navegar nas ondas do imaginário.
                                              
   Diógenes de Brito
 
  Estrela reluzente

Agora, és uma estrela reluzente
Senhora absoluta do seu destino
Sem obstáculo, dano, desatino
Que te impeçam de seguir em frente.
Conseguirás tuas riquezas certamente
Tão cobiçadas, desejadas, imagino
Não terás apenas um amor clandestino
Reacendendo essa tua chama ardente.
Digna de uma adorada deusa do além
Que jamais foi minha, nem de ninguém
Tão somente às vantagens aliada.
Tudo te parece tão fácil, deslumbrante
Euforia, exaltação, êxtase alucinante
Que nem pensas ser por si só apagada.
                                   
                            Diógenes de Brito
 

 
 
                    Escolha do Editor
 

domingo, 25 de setembro de 2022

O Pintassilgo

 
 
Blog  Maçayó

Edição   nº 508

 Tema das Imagens : Primavera
 
 LEITURA   DE   DOMINGO
 
HAYDE E O PINTASSILGO

          Era uma manhã de outono quente, no vilarejo, um pequeno povoado no sertão de Minas Gerais, onde o sol já resplandecia caloroso e dava o seu espetáculo de luz e brilho no céu... Hayde, uma garotinha de sete anos de idade, vivia sonhando acordada, ela era uma autêntica admiradora da Natureza. Comentava-se que a pequena menina ouvia e falava com as plantas e os animais; gostava de alimentar os diferentes pássaros que visitavam o seu quintal à procura de comida e abrigo nos dias de chuva. Ela era muito apaixonada pelos Pintassilgos e costumava ficar na janelinha de seu quarto ouvindo o gorjear daquelas fascinantes aves.
         
Naquele dia, tudo parecia normal e sua rotina foi igual, tomou seu banho no terreiro, onde podia contemplar o esvoaçar das borboletas sobre as flores e se debruçou na janela e lá ficou esperando os Pintassilgos aparecerem. De repente, um Pintassilgo maravilhoso posou em sua janela, ele tinha penas amarelas por todo o corpo, a cabeça totalmente preta e media aproximadamente 12 cm de comprimento. O magnífico pássaro rodou, rodopiou e posou novamente, a garotinha ficou deslumbrada com tanta beleza, tão emocionada que muitas lágrimas rolaram pela sua face rosada, pois a emoção era tanta que ela mal podia controlar e ficou pensando: “Não existe sentimento maior, eu sou feliz com o meu novo amiguinho!”. Assim, o silêncio foi quebrado pela voz suave daquele passarinho:
          - Você é uma linda menina e todos os dias eu fico te olhando de longe, sem coragem de me aproximar. Eu sou um pintassilgo-da-cabeça-preta e vivo a voar pelos jardins em busca de aventuras e de novas amizades.
          - Uau, que lindo você é! Você pode falar comigo, pois eu estou ouvindo a sua suave voz. Disse-lhe a garotinha.
          - Eu posso falar com quem procura me ouvir, bela garota! Estou precisando de você, por isso te coragem para me aproximar! Exclamou o lindo pássaro.
         - Oh, ave maravilhosa, eu posso ouvir os animais e as plantas! Sou apaixonada pela Flora e pela Fauna. Se eu puder te ajudar, ficarei muito feliz! Meu nome é Hayde.
          - Ah, que lindo é o seu nome Hayde! Veja a minha asinha direita, ela está machucada! Quase não estou conseguindo voar, quase não canto de tanta dor, já não descanso e preciso de um abrigo enquanto meu dodói não sara totalmente. Quero minha vida de volta! Disse-lhe o passarinho, com um semblante de tristeza.
          - Meu amiguinho Pintassilgo se aproxime, por favor! Deixe-me olhar direitinho o seu machucado, assim poderei aliviar o que você sente. Disse-lhe Hayde.
          Então, a fascinante ave se aproximou da garota e deixou que ela cuidasse de seu machucado. A confiança entre eles era tanta que o Pintassilgo pousou na mão da garotinha e esperou a ajuda dela e o seu abrigo acolhedor. O amor que existia entre eles era o melhor remédio para aliviar a sua dor. Hayde analisou minuciosamente a asinha do amiguinho e percebeu que ela tinha um espinho de Mandacaru cravado, mas estava bastante profundo. Assim, Hayde falou:
          - Meu amiguinho, tem um espinho de Mandacaru machucando sua asinha, vou precisar remover, sei que vai doer, mas você precisará confiar muito em mim. Eu te darei abrigo, alimentação, carinho e muito amor.  Disse-lhe a bela garotinha.
          - Hayde, você vai me dar tudo que um ser precisa para sobreviver, sem nada exigir! Isso se chama amizade verdadeira!
          A menina Hayde conseguiu retirar o espinho da asinha do Pintassilgo, Forrou uma fronha bem limpinha em uma caixa de sapato e gentilmente colocou o seu amiguinho lá dentro para descansar. Ela cercou-o de muita atenção, carinho e todo dia passava elixir na asinha dele para não infeccionar, dava-lhe água e comida no biquinho e ficava cantando até ele adormecer. O tempo passou depressa e o lindo pássaro ficou curado. O amor e a amizade de Hayde realizaram um verdadeiro milagre. Certa manhã, o Pintassilgo falou para Hayde que precisava seguir seu caminhar, pois ele tinha uma família que dependia dele, tinha uma mãe e um pai que precisava da juventude dele.
   Então conversou com ela:
          - Hayde, eu quero agradecer a sua acolhida, eu nunca fui tão feliz em minha vida, nos dias que aqui estive em sua companhia; eu vivo livre a voar é preciso voltar para minha família. Amiga, saiba que nunca te esquecerei, voltarei para te visitar, cantarei para você dormir, pois a sua amizade é o meu maior tesouro. Porém, não chore quando eu for partir, estarei com você em pensamento.
         - Meu amigo alado, eu também fui muito feliz nesse período que passamos juntos. Sua companhia foi confortante e a sua amizade não tem preço. Obrigada digo eu, por você existir! Volte sempre, pois aqui estarei à tua espera! Siga o seu caminho em Paz! Hayde falou.
         - Agora, preciso me despedir de você querida Hayde, saiba que não será para sempre, voltarei para te visitar diariamente, minha amiga, estarei a voar por esse jardim. Agora feche os seus olhos e acredite nesse seu amigo. O aventureiro Pintassilgo, que te ama de verdade, que é dono de um amor sem fim.
          Logo, a garotinha Hayde fechou os olhos e quando os abriu, viu o seu amigo Pintassilgo pairando no ar, ele bateu as suas asinhas e para bem longe voou sem nem sequer olhar para trás. A menina não chorou, mas ficou muito triste. Já bem cansada, ela resolveu dormir...
          Todos os dias seu amigo Pintassilgo voltava para visitar Hayde e selar assim a sua amizade. Ser amigo é se doar sem esperar receber, pois o amor é a maior prova de amizade.
         Até a próxima aventura, meus amiguinhos! Sejamos amigos sempre!

         Elisabete Leite
 
CANTINHO DA TIA BETA
 
 MEU AMIGO PINTASSILGO

Ah Pintassilgo, meu passarinho!
Meu verdadeiro amigo colorido,
Foste seguir por outros caminhos
Deixando-me de coração partido...

Ele sempre foi um bom cantador
Gorjeava belas canções, sem fim
Inspirou-me a cantar e a compor 
Deixava o dia sorridente, assim!   

Hoje vivo infeliz, não sou sonhador!
Não vejo o pairar da ave pelo jardim
Perdi minha razão, sem o teu amor...

Choro por ti ao som dos bandolins,
Com saudade, tristeza e muita dor
Amigo Pintassilgo, volta para mim!

Elisabete Leite
 
 Pintassilgo: saiba mais sobre a ave


O pintassilgo é um pássaro lindíssimo, originário da América do Sul e conhecido por um dos cantos mais bonitos encontrados na natureza. É possível ser encontrado em áreas abertas, como parques e jardins, e costuma voar em pequenos grupos, que fazem bastante barulho chamando atenção de quem os vê passar.
Uma das características físicas que distinguem o pintassilgo são as cores marcantes das suas penas: o corpo é de um amarelo vivo muito bonito. Se o pássaro for macho, as penas da cabeça serão totalmente pretas, fazendo parecer que a ave está usando um capuz. Já as fêmeas têm cor verde oliva, com manchinhas nas asas. Ambos são muito bonitos!
Quando atinge a idade adulta, o pintassilgo pode chegar a medir de 11 a 14 centímetros de comprimento. É uma ave muito resistente e raramente apresenta problemas de saúde: costuma ter uma vida bem longa, e pode chegar aos 14 anos de vida.

A reprodução e a alimentação do pintassilgo

O pintassilgo costuma fazer seus ninhos na copa de árvores como a araucária. O ninho é arredondado, em forma de cuia, e pode ter alguma forração na parte de dentro. Cada ninhada gera de 3 a 5 ovos, que são cuidados pela fêmea enquanto o macho sai em busca de alimento. Os passarinhos nascem treze dias depois que os ovos são postos, e aos 10 meses já estão prontos para iniciar suas próprias famílias.
A alimentação do pintassilgo consiste em insetos, folhas e brotos de diversas plantas, podendo também comer sementes de flores e pequenos frutos secos.

A criação do pintassilgo em cativeiro

Como acontece com outros animais silvestres, a comercialização e a criação de pintassilgos em cativeiro é regulamentada pelo Ibama. Isso significa que você só pode adquirir um ou mais pássaros em estabelecimentos que sejam certificados e que tenham autorização para venda.
Faça uma pesquisa aprofundada sobre o local onde pretende adquirir a ave, e não proceda sem ter certeza absoluta de que está tudo certo. Essa é a única maneira de você não cometer um crime ambiental, e de não contribuir com o tráfico e o comércio ilegal de animais silvestres.
O viveiro escolhido deve ser grande o bastante para acomodar alguns indivíduos, pois o pintassilgo é muito sociável e não vive sozinho. Quando perceber a formação dos casais, que se dá pelo canto, você pode transferir o par para uma outra gaiola onde será construído o ninho que receberá os ovos.
Depois que os ovos forem postos, separe o macho da fêmea e deixe que apenas ela cuide dos filhotes. É muito importante colocar os filhotinhos em uma gaiola menor, pois em viveiros muito grandes eles podem se machucar.
A gaiola deve ser limpa diariamente para remover vestígios de fezes e restos de alimentos, que podem apodrecer e atrair insetos indesejados. Também é fundamental que o fundo da gaiola seja removível, de maneira a manter as fezes longe das aves.
Mantenha sempre água limpa e fresca à disposição do pintassilgo e faça consultas regulares com um médico veterinário para obter orientações sobre alimentação, cuidados de saúde e muito mais.

Pesquisa:
https://blog.cobasi.com.br/pintassilgo-saiba-mais-sobre-a-ave/

Curiosidades

A espécie canta praticamente todo o dia, sendo que as canções são longas, chegando a até 2 minutos sequentes. Embora as variações de notas sejam poucas, o canto é alto e impressiona diversos amantes de pássaros. Aliás, o pintassilgo conta com a capacidade de imitar outras aves.
Pesquisa: Google.

 
 ENCONTRO   DE   POETAS
 
Tempo
Nely da Costa Barbosa


O tempo é bem curioso, quanto mais distante, mais presente. É que o nosso pensamento corre feito uma serpente, tem horas que corre pra trás, tem horas que corre pra frente. Pra frente chamamos de sonho, pra trás de saudade pungente.
Quando a gente ainda é criança, sonhamos com quem vamos nos tornar, quando ficamos adultos, com a criança querendo voltar.
Vai entender esse tempo, que vive fora, que vive dentro, que às vezes empurramos pra frente, às vezes queremos parar.
Ter tempo pra ser feliz, ter tempo pra namorar, pra conhecer outro país e pra poder estudar. Esse é o tempo feliz e que nos faz recordar momentos inesquecíveis, de alguém ou de algum lugar. Mas quando a gente se encontra num momento de tristeza, com gente difícil de lado, cheia de indelicadeza, a gente espera que o tempo corra pra longe da gente, e nunca mais quer lembrar daquela dor novamente.
Que o nosso tempo seja amigo, que traga boas risadas, das lembranças da infância, da primeira namorada, dos amigos da escola, das noites enluaradas, das conversas na esquina, sentados pela calçada, sonhando com o futuro sem se preocupar com nada, seguindo a vida tranquilo, nas noites enluaradas.
 
 ÁRVORE SEMENTEIRA
(Baltazar Filho e Elisabete Leite)

Uma semente brotou
De uma linda videira
Do pé da ribanceira
Eu estava a contemplar.

Parecia ser uma árvore sementeira
De galhos fortes sempre a balançar
As folhas verdejantes caíam inteiras
Tal qual borboletas a nos encantar...

Tamanha era sua estatura
Que a mim remetia uma figura
Semelhante a uma Oliveira
Do gênero de uma Jequitibá.

Seu tronco grosso de genuína madeira
A árvore era de grandiosidade secular
Com aparência de uma bela cerejeira
Ficava a todo momento a me acenar...

Frondosa e abraçada a Natureza
Cresceu até o alto do céu a segurar
Era árvore de soberana grandeza
As raízes sugavam a água do mar.

A paisagem era de tamanha beleza
Tal qual uma rosa em seu desabrochar
Os discípulos de tal nobre singeleza
Eram os frutos da árvore a frutificar.
 

Levei-me em duro fardo até o monte
De lá contemplei meu não fracasso
Pois trabalhoso foi o meu desmonte
De galgar tal morro no compasso

Mas para fracassar tem que subir
Sentir no trajeto a dura lida
Pedra não rola sem se conduzir
Ao píncaro da glória sofrida

Mas quando enfim a altura atingir,
Vê-se que nada jamais é novo
Porque tudo tende a se repetir

Atinjo o cume pra poder cair
Assim na rotina eu me revolvo
Porquanto meu mundo torna a ruir

Rioquepassa
 
 Meu olhar se fecha quando quer te ver
Ao buscar teu corpo adormecido
Na manhã em que sóis não aparecer
Ainda que queira não é atendido

Posto que em pele amanheces casta
Teu corpo em pele negas compartir
Em mim uma sede que não se farta
Tendes tu na manhã a ela repelir

Ardemos nessa busca sôfrega
Maro caos que tanto nos condena
Ao exílio de nós que nos carrega

Para longe e tal mal nos apena
Pois na alva, jamais, a luz entrega
Ao amado ver esse corpo em cena

Rioquepassa
 
 
 UMA MULHER SEM ILUSÕES

Caminhando entre os espinhos das rosas que ela mesma plantou, e mesmo ferida, sorrí para os predadores que sempre estão à espreita de novas presas. Mas não se intimida e segue sem medo. Ali ganha mil beijos de amor, e os tapas em seu rosto causam-lhe as cicatrizes que, por muitos anos evitou guardar. E foi "juntando as pedras", uma a uma, como experiências de vida, para salvaguardar as dores dos frutos que deixou na terra. Graças a essa iniciativa, a essa força que toda mulher tem, aqueles beijos de amor lhe serviram de lição que, tanto trazem felicidade quanto a solidão da alma. Abstém-se agora de outras ilusões e aqueles espinhos não lhe ferem mais. Leva nas mãos apenas as pétalas de rosas e no coração o seu perfume, para lembrar daquele amor que fora seu, apenas seu, de mais ninguém. Esta mulher... a quem pertence agora? Pertence a Deus e ao tempo, menos às ilusões do mundo!

Socorro Almeida
Recife, 15/09/2022
 
 Cantinho do Editor
 
 A Criança e o Boitatá

          Zazulina, como a menina era chamada carinhosamente por seus pais, não dormiu bem. Abraçada com seu ursinho Papão, por várias vezes acordou durante a noite. Algo lhe incomodava, pegou no sono mais uma vez e foi acordada por sua Mãe que a chamava para ir à escola.
          - Zazulina, olha a hora, vá se arrumar, você já está atrasada...
          - Estou indo Mainha....
         Às pressas jogou Papão destro da mochila, desceu correndo a escada e em um gole só tomou seu café matinal, que era uma fruta, um copo de suco e um copo de leite. A mesa era farta, mas no seu corre-corre e sempre atrasada, engolia os alimentos, e sua Mãe reprimia com um largo e bondoso sorriso no rosto, parecia bronca de avó.
          No ônibus escolar a menina Zazulina ia lembrando aos poucos do sonho que tivera na noite anterior que a deixou assustada. Lembrou de uma cobra enorme com a cabeça pegando fogo. Sua cabeça parecia conter milhares de olhos que brilhavam no escuro do quarto. A lembrança era assustadora.
          No percurso para a escola, o ônibus passava por dentro de um bosque, resquício da Mata Atlântica, que Dr. Pafúncio, um rico industrial, queria transformar em um novo Shopping. Zazulina olhava para aquelas árvores frondosas lembrando que ali já existiu uma grande floresta. Olhando para as árvores, ela teve a impressão de ter visto um grande clarão, como se o bosque estivesse pegando fogo. Olhou com mais atenção e percebeu que o clarão mudava rapidamente de lugar, parecia que o fogo estava correndo. Zazulina ficou assustada, não falou para ninguém do que tinha visto.
           Na escola, a professora Bertha, ao término de sua aula, disse:
          - Crianças, para amanhã tragam-me uma redação opinando sobre o que é mais importante para a nossa comunidade, manter o Bosque Azul ou construir um novo Shopping em seu lugar? O bosque representa um pouco da Flora e da Fauna que já existiu em nossa cidade e um novo shopping representa novos empregos e mais recursos para a cidade, não esqueçam do trabalho. Peçam ajuda para seus pais e irmãos, é importante que a família participe das tarefas escolares.
          Fim de aula e Zazulina não entendia o que estava acontecendo. Após uma noite mal dormida agora sua professora pedia para ela escolher entre manter o bosque ou construir um shopping? E aquela cobra gigante de cabeça de fogo não saía de seu pensamento.
          Chegando em casa esperou seu pai chegar do trabalho, e nem bem ele sentou para tirar os sapatos, ela já o abraçava com mil perguntas.
          - Painho você já sonhou com uma cobra vermelha gigante que tem fogo na cabeça? Ela existe?
          Seu pai, percebendo a aflição de Zazulina, disse:
          - Vamos jantar, depois nós conversamos e você me conta tudo o que está acontecendo.
          - Mas Papai, eu queria saber...
          Seu Pai a interrompeu e falou carinhosamente.
         - Tudo tem seu tempo Zazulina, suas dúvidas podem esperar o jantar. Jantar em família é muito importante, é um momento mágico, é quando após um dia de trabalho e estudos nos sentamos para agradecer por tudo que conseguimos nesse dia.
          - Sua Mãe está nos aguardando, vamos jantar, depois conversamos.
          Zazulina jantou em companhia de seus pais e irmãos, conversaram, riram e ao término da refeição, correu para a sala, onde já se encontrava seu Pai e sentou-se ao seu lado.
          Ficou calada, respeitando o silêncio de seu Pai que folheava um jornal. Após alguns minutos em silêncio seu pai perguntou?
          - Zazulina, você já ouviu falar em “Boitatá”?
          - BoiiiTataaaa!!! Não painho. O que é Boiiiiitataaaa?
          - Quando eu era criança, meus pais me contaram que nas florestas existe uma grande cobra de fogo que protege as matas e florestas. Ela é muito antiga. Foi o padre jesuíta José de Anchieta, que primeiro a citou em um texto. Esse nome foi dado pelos índios Tupi-guarani e significa cobra de fogo.
          - Ela tem vários outros nomes, Baitatá, Biatatá, Baitatão, Fogo Corredor, Cobra de Fogo e tantos outros.
          - Pai ela deve ser parente da Tataruna, lembra da história que lhe contei?
          - Lembro da Tataruna e da Borboleta. O Boitatá vive dentro dos rios e lagos e sai para assombrar as pessoas que fazem mal as matas e aos animais. Ela tem a capacidade de se transformar em um tronco de fogo e passa grande parte de seu tempo se rastejando pela floresta na escuridão da noite.
          - Painho, se ela vive na água o seu fogo não apaga?
          - Não, seu fogo é mágico, não queima as matas nem os animais que lá habitam. Por ser mágico também não apaga quando ela se encontra nos lagos ou nos rios das florestas.

          - Que legal, então se ela aparecer em meu sonho, ela também não me queima, não é painho?
          - Ela não faz mal as pessoas, ela quer nos alertar da necessidade de protegermos as matas, os bosques, as florestas e tudo que existe nelas.

           Zazulina deu um grande sorriso, quase esmagando o ursinho Papão, beijou seu Pai e foi para seu quarto. Fez suas tarefas, entre as quais a redação para Dona Bertha, e adormeceu.
Em seu sono, agora já calmo, foi novamente visitada pela cobra de fogo que chegou logo se apresentando:
          - Oi Zazulina, eu sou a Boitatá, meu fogo não lhe queima, quero só conversar e pedir ajuda.
          Zazulina e a cobra de fogo conversaram durante toda a noite.
          No caminho para a escola Zazulina relia seu trabalho. Quando entrou na sala entregou de imediato a redação para Dona Bertha. A professora leu todos os trabalhos e escolheu um para ler na sala. Chamou Zazulina para ler em voz alta para toda a classe, pois o trabalho escolhido foi o dela.
          Zazulina, em pé, leu sua redação que era um verdadeiro manifesto pela proteção do Bosque Azul. Falou da importância da Fauna e da Flora, falou que ali antes existia uma grande floresta conhecida como Mata Atlântica. No final lembrou que o Shopping poderia ser construído em um outro local.
          Durante sua leitura, Zazulina sentiu que estava sendo observada pela janela da sala. E pelo canto do olho teve a impressão de ter visto uma grande cobra de fogo que agora chorava de contentamento. Também percebeu um garoto de cabelo vermelho que estava acompanhando a Boitatá, e que em dado momento ela chamou o menino de “Curupira”.

          Bom, mais aí já é outra história.

Jorge Leite, Recife 24/03/2018

Nota. Este conto foi publicado na Edição Nº 353, em 24 de agosto de 2019, no Blog Maçayó.

 

 

Imagens: Primavera 

 
 
                    Escolha do Editor
 
 

domingo, 18 de setembro de 2022

Folhas

 
 
Blog  Maçayó

Edição   nº 507

 Tema das Imagens : Folhas
 

 LEITURA   DE   DOMINGO
 
 DIA BRANCO

          Era quase primavera! Estação das cores, dos amores, do aroma das gardênias e dos cântaros dos colibris, em seus bailados, de flor em flor. O dia tinha tudo para ser branco; um dia calmo, sem atropelos e sem muitas definições, mas com grandes emoções; principalmente, para Maria Rita que não poderia prever uma série de acontecimentos imprevistos naquele dia que, na totalidade, não seria tão branco assim. A garota já levantou-se cantarolando uma canção de Geraldo Azevedo (Dia Branco), composta em parceria com Renato Rocha; canção que é um dos maiores sucessos do compositor Geraldo Azevedo:

"Se você vier
Pro que der e vier
Comigo
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair..."
          
           Maria Rita olhou-se no espelho penteou algumas mechas que cobriam seus olhos, vestiu-se depressa e saiu cantarolando; cruzou no corredor com sua mãe que aproveitou para passar-lhe um sermão matinal:
           - Maria Rita, você está mais uma vez atrasada para a faculdade. Minha filha, tome tino na vida! Que seu dia promete! E o tempo não para...
           Maria Rita olhou para sua mãe, e disse-lhe:
          - Mãe, o que é tomar tino na vida? Se a senhora se referiu ter capacidade de julgar; juízo, sensatez. Eu tenho muito juízo, só não gosto de viver na pressa, mas sou responsável. E saiu em seguida!
           A garota foi correndo para não perder o horário da condução. Subiu no ônibus escolar cantarolando baixinho a mesma melodia:

"... Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar

... Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor..."

          Maria Rita chegou à faculdade eufórica, queria encontrar seu namorado bibliotecário, mas ao subir correndo os degraus da escada, caiu e quebrou as tiras da sandália e ficou, literalmente, descalça. Ainda correndo entrou na Biblioteca e deu de cara com Gustavo aos beijos com sua amiga de sala. Voltou-se, sem nem olhar para trás, e continuou correndo! Ainda ouviu os gritos de Gustavo, que dizia: "Ritinha, não é o que você está pensando! Por favor, espere por mim! Mas, Maria Rita permanecia correndo pelo corredor de acesso às aulas. A garota não sabia se parava ou continuava correndo para fugir daquele momento que já escurecia. Então quedou-se, paralisada, e logo depois saiu da escola. Repentinamente, a chuva começou forte, misturando suas lágrimas aos seus cachos amendoados, obrigando a se proteger sob a marquise de um velho depósito de bebidas, próximo à faculdade. Logo depois, um ônibus passou, levantando lamaçal, deixando a garota enlameada dos pés à cabeça. Maria Rita já não sabia se ria ou chorava da situação constrangedora. De repente, parado à sua frente estava Gustavo, a garota enxugou as lágrimas e continuou cantando a mesma canção:

"...Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se branco ele for
Esse canto, esse tanto
Esse tão grande amor
Grande amor

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Comigo"

          Gustavo se aproximou de Maria Rita a beijou nos lábios, e disse-lhe:
           - Ritinha, acredite em mim! Foi sua amiga que me beijou sem eu esperar. Estarei sempre contigo em qualquer cor que seja o seu dia.
           O tempo passou... Ritinha e Gustavo nunca mais se separaram e sempre se recordam daquele, Dia Branco, com chuvas.

Elisabete Leite - 12/09/2022

                 
De onde veio a inspiração para “Dia Branco”?

No segundo episódio da série “Geraldo Azevedo Responde”, o cantor petrolinense mata a curiosidade de todos os seus fãs: Afinal, de onde surgiu a inspiração para “Dia Branco”? A canção, composta em parceria com Renato Rocha, é um dos maiores sucessos de Geraldo, já tendo embalado incontáveis casamentos por todo o país (e até mesmo fora dele). Confira a resposta no vídeo abaixo!

Pesquisa:
https://geraldoazevedo.com.br/de-onde-veio-a-inspiracao-para-dia-branco/

Interpretação da Letra:

Uma das mais belas declaração de amor que a música brasileira oferece, “Dia branco” ressalta o companheirismo, o amor incondicional, a boa esperança faça chuva ou faça sol, em qualquer lugar que seja o amor estará sempre presente em uma praça ou no mar, enfim, é o amor infinito e bonito, o amor revestido da paz que canções como essa nos presenteiam.
 
 
 
 
 
 

  ENCONTRO   DE   POETAS
 
 AMOR PROIBIDO
Valdemar Guedes


Dormindo, acordado
Ilusão, nostalgia
Esperança vazia
Mas, o amor sonhado.

Sonho dos meus sonhos
E ainda que impedida
Amor da minha vida
Paixão te proponho.

Desprezo e solidão
Sofre um coração
Num peito doído.

Se não posso tê-la
Contenta-me vê-la,
Amor Proibido.
 
 ASSIM É O AMOR
Valdemar Guedes

Inesperadamente ele acontece
Sutilmente, qual brisa em primavera  
Fisga o alvo, cuja conduta altera...
Revigora, ou quebranta, e o envaidece.

Como a Bela Adormecida despertou
Brota uma súbita vulnerabilidade...
Sensível, a alma transborda de ansiedade
Alegria, ou tristeza, ou mesmo dor.

Com a sua chegada tudo muda
Atribulado, o coração se enfurece
Feito chamas de um Fogo Abrasador.

Fere o peito, igual flecha pontiaguda
E na euforia, deprime ou robustece...
São sintomas de quando chega o amor. 

  Soneto: Lira Coração

A ninfa em solitude e em serenata,
De belas e divinas partituras
E cálidos vibratos de ternura.
Revela-se boníssima sonata.

E canta dos amantes a cantata
E timbres alternados de doçura;
E versa dos amantes a candura
Que os une, musicados, na tocata!

E a sacra calidez sob os amores,
Rebrilha desoculta na canção;
Em versos requintados de calores.

Que o lume rutilante da paixão
Cantada sob os nínficos clamores
Flameja com a lira coração!


                            - Marujo Poeta
 
  Soneto: A Colheita

A ninfa do pomar de encantamentos,
Frutíferos gracejos cultivados
Que animam a pulsares inflamados,
Convida-me a colher do provimentos.

E exulto por sorver de prazimentos,
Dióspiros em beijos flamejados
E néctares vertidos, derramados,
Dos lábios em amáveis acalentos.

Na ceifa campesina da paixão,
Recolho dos cultivos de candura
Os frutos que enternecem a razão.

Que a excelsa frutescência da ternura
Renutre e fertiliza o coração
Do anseio por acalento e semeadura!


                                  - Marujo Poeta
 
  FLOR DO CERRADO
Joseraldo Silva Ramos

Linda como uma flor do cerrado
Regada por forças da natureza,
Exalas perfumes simples na beleza
E dar asas a esse coração alado.

Ao alvorecer ficas, ainda, mais linda
Ao receber o orvalho matinal,
E nos transmitindo algo divinal
Que o voo no universo se finda.

Vem florir aqui no meu quintal!
Quiçá, até mesmo no meu jardim
Frutificar, fincar raízes sem fim...

A Primavera, lindamente natural
Que existe para me fazer sorrir!
Sendo a pura essência do alecrim.
 

 
 Cantinho do Editor
 
 BEIJOS DE VERÃO

Entre um beijo e outro as amarguras ficam e a tudo dilaceram, pelos lábios macios e ardorosos que beijei, até que qualquer saudade seja maior, porque menor ela não é e nunca será! Lembro deles como se fosse morrer amanhã, ou se já morri, não sei! Seria pelo calor do sol ou pelo ardor vindo da boca que jamais esqueci? Fico imaginando outras bocas recebendo teus beijos e, amarguradamente, descubro que eles nunca foram meus, apenas frutos da minha imaginação ou do meu coração carente de ti! Deixo-os marcados nas gotas de lágrimas que choro, até um dia saber que, entre um beijo e outro, teus lábios se amargurem também, com saudade dos meus!

Socorro Almeida
Recife, 04/06/2023
 
 SOU O QUE SOU

Sou alguém feito de bronze ou argila
Reverenciado nas esquinas das pontes
O pássaro que voa à luz dos horizontes
O riso do lobo, o ataque da matilha.

Sou as pedras que matam as "madalenas"
As lágrimas e a dor dos arrependidos
Sou a fome dos famintos desfalecidos
Pelas esquinas, ao apito das sirenas.

Sou o remédio ao veneno das serpentes
Posso ser muito mais do que imaginas
A paz e o descanso para tua sina
Eu resido em tua alma, e não me sentes!

Eu choro a dor da incrédula humanidade
Eles vagam pelas ruas tão indiferentes
Mas eu os perdoo e lhes tenho piedade
Porque tento residir onde não me cabe.

Socorro Almeida
Recife, 2021
 
 
 O Perfume das Rosas.

Deixe seu corpo perfumado
Para quando eu voltar.
Mesmo que outras mãos o toquem,
Não deixe marcas.
Mesmo que outros braços o apertem,
Não deixe marcas.
Mesmo que outros lábios o excitem,
Não deixe marcas.
Mesmo que outros o possuam,
Não deixe marcas.

Quero encontrar o teu corpo perfumado
Como as rosas de uma roseira.
As rosas são puras,
Não importam, nem a marcam, os espinhos.

Deixe seu corpo perfumado
Para quando eu voltar.
Mesmo que o tempo o castigue,
Não deixe marcas.
Mesmo que a solidão o sufoque,
Não deixe marcas.
Mesmo que a dor o maltrate,
Não deixe marcas.
Mesmo que os males o encurvem,
Não deixem marcas.

Quero encontrar teu corpo perfumado
Como a maresia que permanece no ar,
Não importam as pedras
Que quebram as ondas do mar.

Deixe seu corpo perfumado
Para quando eu voltar.
E o perfume do teu corpo,
As essências das rosas
Vão se misturar.

Guardarei a lembrança de teu corpo
Para mim.
Mesmo que sua ausência faça-me definhar,
Não deixarei marcas.
Mesmo que a distância faça-me chorar,
Não deixarei marcas.
Mesmo que a saudade faça-me sofrer,
Não deixarei marcas.
Mesmo que meus caminhos
Não me permitam voltar,
Não deixarei marcas.

E quando voltar,
O perfume das rosas de teu corpo
Em meu corpo hão de estar.
Não importam os espinhos,
As pedras, os caminhos,
A pureza das rosas
Em teu coração
Há de ficar.

Jorge Leite, para Miss Darling

 
 
 
 
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